Por que os cubanos “fogem” para a Flórida?

Todo mundo submetido à propaganda ideológica dominante já deve ter se deparado com fotos antigas dos “balseros” – cubanos que se aventuram em balsas no mar do Caribe para chegar à costa norte-americana. A resposta hegemônica a esse problema real é convicta na difamação e na desinformação: os cubanos estão “fugindo para a liberdade”.

Como o objetivo aqui é desprezar as simplificações, afirmo que são múltiplas as razões que levaram os cubanos a emigrarem. A mais significativa delas, sem dúvida, é a financeira: Cuba, a despeito de todos os seus logros na área social, é um país com uma economia debilitada.

Porém, essa motivação tem explicações mais conjunturais (deixo para outro post). É possível ir a fundo em outros aspectos fundamentais. O bloqueio norte-americano imposto à ilha não é só estritamente econômico, como também tem uma dimensão política fortíssima, e nada é mais representativo que um entulho dos EUA típico da Guerra Fria: a Lei de Ajuste Cubano (CAA), de 1966. Proposta pelo governo Lyndon Johnson – sim, aquele da Guerra do Vietnã -, essa legislação determina simplesmente que qualquer cubano que pise em solo americano, automaticamente, recebe cidadania americana. Isso mesmo: FODA-SE como o cubano chegou aos EUA, mas, estando lá, ele ganha um Green Card!

Tal privilégio, que nunca existiu para nenhum outro povo latino-americano, é incentivo proposital à imigração ilegal. Em décadas, ela fomentou que, de forma clandestina, cubanos abandonassem a vida em seu país em busca do “American Dream”. Ao mesmo tempo, os EUA dificultaram todos os meios de se conseguir o visto de entrada para que os cubanos tomassem um avião e emigrarem legalmente.

O objetivo dessa política genocida era justamente utilizar a imigração clandestina dos cubanos tanto como peça de propaganda reacionária, como arma de guerra imperial contra o governo soberano de Cuba. Em 1996, no governo Clinton, chegou-se até a uma alteração nessa lei, com a implantação da política dos “pés secos, pés molhados”, que privilegia os cubanos que conseguem tocar território americano, enquanto os interceptados no mar são devolvidos à ilha.

Apesar de toda propaganda de guerra, Cuba, com 11 milhões de habitantes, é apenas o 10º país latino-americano em matéria de envio de emigrantes aos EUA. El Salvador, por exemplo, com uma população de 6 milhões de habitantes, já enviou aos EUA mais de 2,5 milhões de seus cidadãos.

À frente de Cuba no número de imigrantes em solo americano, também estão os “paraísos capitalistas” México (óbvio), República Dominicana, Guatemala, Honduras e Haiti. Todos fugindo de seus regimes políticos? Não, estão fugindo igualmente por razões econômicas. Ou seja, fogem da desigualdade do capitalismo.

Gabriel Deslandes


de

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