“A antropologia cultural superou Engels”? A falsa superação acadêmica contra Morgan, Engels e o marxismo no âmbito antropológico

Este texto é um excerto dos comentários de Vinícius Bessi, com base nas concepções da acadêmica Eleanor Leacock, sobre a falsa ideia de superação do antropólogo Morgan (e também da obra “A Origem da Família” de Engels) em relação ao conceito de patriarcado.


O patriarcado surgiu de fato antes da propriedade privada como diz muitos adeptos da antropologia cultura?

O posfácio que a antropóloga marxista estadunidense Eleanor Leacock fez para a edição dos EUA da obra de Engels, “A Origem da Família, da Propriedade e do Estado”, mostra uma série de dados (principalmente de tribos indígenas do próprio território estadunidense) que corrobora com a tese de Engels e Morgan sobre a correlação entre a propriedade privada e a emergência do patriarcado.

Aliás, a Eleanor Leacock desmonta várias críticas nesse sentido de que “foram encontrados povos patriarcais sem propriedade”, mostrando que não há análises rigorosas da distribuição e hierarquia de poder nessas sociedades, e que os antropólogos não marxistas essencializam qualquer diferença entre os sexos nas comunidades ‘primitivas’ (como qualquer divisão técnica e social do trabalho) como uma “dominação sobre as mulheres”, pelos homens.

De acordo com essa marxista, há uma confusão, na antropologia [cultural], entre GÊNERO (que é a diferença de identificação e reconhecimento social entre os sexos – o que para o marxismo só é observável pela divisão do trabalho: os diferentes papéis sociais entre os sexos são desdobramentos dessa divisão) e PATRIARCADO (que é a dominação do papel social de “pai”, patriarca, sobre as mulheres enquanto papel de “mãe”, matriarca, e a prole – que é resultado da monogamia, por ser essa forma de relacionamento afetivo necessária para a proteção e perpetuação da propriedade privada porque permite identificar privadamente os progenitores das proles para a herança, o que por sua vez faz a propriedade preceder o processo de formação do patriarcado como sua condição necessária).

Obviamente há desigualdades entre os gêneros independente do papel de patriarca ou matriarca, mas isso se dá pelo potencial que os gêneros possuem de exercer esses papéis e pela inscrição da desigualdade entre os gêneros em sua diferença de papéis no tecido social pelo “patriarcado clássico”.

Como diz Eleanor:

“Com a divisão do trabalho, na qual estão dadas todas estas contradições, e a qual por sua vez assenta na divisão natural do trabalho na família e na separação da sociedade em famílias individuais e opostas umas às outras, está ao mesmo tempo dada também a repartição, e precisamente a repartição desigual, tanto quantitativa como qualitativa, do trabalho e dos seus produtos, e portanto a propriedade, a qual já tem o seu embrião, a sua primeira forma, na família, onde a mulher e os filhos são escravos do homem.

A escravatura latente na família, se bem que ainda muito rudimentar, é a primeira propriedade, que de resto já aqui corresponde perfeitamente à definição dos modernos economistas, segundo a qual ela é o dispor de força de trabalho (arbeitskraft) alheia.

De resto, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas – numa enuncia-se em relação à atividade o mesmo que na outra se enuncia relativamente ao produto da atividade”.

Vinícius Bessi

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