Quem são os pós-modernos e por quais motivos lutam contra eles os marxistas

Veja dez considerações introdutórias sobre o que é o pós-modernismo.

A partir do processo em que as jornadas de junho de 2013 foram a expressão mais notória o Brasil vem vivendo um momento de acirramento da mobilização das massas em torno dos conflitos políticos.

Um importante segmento social a se destacar nessa cena vem sendo aquele oriundo das camadas médias, que vêm oxigenando tanto forças à direita (a partir de forte inclinação ao fascismo) quanto à esquerda, em que uma das expressões, com base especialmente entre os meios estudantis, está na formação de coletivos identitários influenciados pelo pós-modernismo.

Com forte caráter anticomunista, latente ou declarado, estes segmentos pós-modernos vêm disputando espaço com militantes marxistas. Todavia, é frequente por parte de pessoas influenciadas pelo pós-modernismo a fuga das críticas, alegando uma suposta banalização do conceito de “pós-modernismo” ou se ancorando num alegado dogmatismo por parte dos críticos que, dizem, chamariam de “pós-modernismo” qualquer coisa que fugisse da sua “ortodoxia sobre luta de classes” (sic).

Então é necessário não só desmontar esse espantalho como ainda apontar, resumidamente, as principais críticas do marxismo ao pós-modernismo hoje.

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1 – De fato o termo “pós-modernismo” é amplo por si mesmo, afinal, não designa uma escola de pensamento em específico e muito menos um movimento conscientemente organizado (nem há consenso entre seus críticos, mesmo no campo do marxismo). Existem vários autores sob seu guarda-chuva, assim como divergências entre estes, além do fato de poucos aceitarem o rótulo de “pós-moderno” (ou, o que é linguisticamente mais preciso, “pós-modernista”). Por isso, de início, vale considerar o pós-modernismo como um “fenômeno”; algo que se dá a partir de determinadas condições objetivas e que, apesar dos seus agentes reprodutores nem sempre terem consciência do fato de estarem inseridos no mesmo, possui uma série de características que, relacionadas entre si, permitem identificar uma manifestação de tal fenômeno e assim classificá-lo.

2 – Mas por qual motivo classificar esse fenômeno como “pós-modernismo”? Grosso modo pelo fato de partir de uma premissa cara aos seus primeiros formuladores: a suposta superação do que chamam de “modernidade”. Para os pós-modernistas “puro sangue” a sociedade “moderna”, do capitalismo industrial e baseada nos valores oriundos do iluminismo, teria sofrido profundas mudanças qualitativas e quantitativas que teriam levado a modernidade à superação – logo, viveríamos numa “era pós-moderna”. Assim, quando se aponta que alguém é “pós-moderno” (e, talvez fosse mais correto chamá-lo de “pós-modernista”) está se falando em algo como “apologista do pós-modernismo”; ou seja, de alguém que, conscientemente ou não, abraça a ideia de superação da “modernidade” por essa tal nova sociedade “pós-moderna” e projeta-se politicamente com base nesse princípio. Discordarmos dessa premissa – pois, ainda que com importantes mudanças, o modo de produção capitalista continua a manter suas principais caracterísicas, inclusive o conflito entre capital e trabalho como centro das contradições – e por isso acusamos sua existência, mesmo que implícita.

3 – Todavia, é importante destacar que não é uma polêmica meramente nominalista. Não seria tão problemático (ainda que, dependendo da abordagem, continuasse a ser problema) dizer que as mudanças existentes no capitalismo marcariam uma transição profunda para “novos tempos”. O problema maior é a conclusão derivada: se a sociedade “moderna” estaria superada, os projetos políticos e ideológicos fundamentados na mesma também! Tais projetos seriam, basicamente, aqueles oriundos do iluminismo, baseados em noções como o uso da razão e da ciência como instrumento de compreensão da realidade, a busca por valores (como liberdade e igualdade) universalmente válidos, entre outros. No campo de “ideologias modernas” supostamente superadas por se basearem numa “modernidade” não mais existente (alegam) estaria o marxismo. Portanto, os pós-modernos (ou pós-modernistas) incorrem em um anticomunismo distinto daquele conservador ou reacionário. Para eles a “modernidade” estaria superada – como se algo tivesse passado da validade. Não seria questão de negar sua edificação em prol de conservar algo antigo, mas de constatar sua superação.

4 – Apesar das primeiras grandes manifestações pós-modernistas serem, grosso modo, vistas massivamente nos anos 1960 e 1970, é com a queda da União Soviética em 1991 que o pós-modernismo tem grande difusão. Segundo os aspirantes a coveiros da História, a queda da URSS demonstraria que os projetos “modernos” estariam superados. A última esperança oriunda do iluminismo, o socialismo, teria, aí, uma pretensa prova da sua falência.

5 – Assim, a humanidade não teria mais nenhum projeto capaz de ser universal e responsável por unificar as mais diversas demandas sob um programa geral (como a luta de classes contra o capitalismo pelo socialismo faria ao interligar a questão colonial, negra, de gênero, etc. à luta anticapitalista). Caberia, portanto (segundo os “pós-modernistas”), a cada “minoria” lutar por si mesma de acordo com suas próprias necessidades sem se preocupar com as demais questões.

6 – O pós-modernismo sustenta, dessa forma, uma espécie de “egoísmo coletivo”: solidariedade exclusiva com os que compartilham das mesmas opressões. Vem sendo frequente nos meios militantes influenciados pelo pós-modernismo expressões como “não me silencie” ou “não roube meu protagonismo”, por exemplo; que, apesar de parecerem exigir uma solidariedade inquebrantável, não passa de apologia do egoísmo – já que qualquer intervenção “externa” divergente, ainda que positiva e propositiva, incorreria, necessariamente, em reprodução de interesses de opressão.

7 – Portanto, é importante notar que o que separa marxistas-leninistas e pós-modernistas não é o apoio ou não às lutas das chamadas (frequentemente de forma errada) “minorias”. O marxismo luta por “minorias” desde muitas décadas antes do pós-modernismo existir. Enquanto liberais como Locke, Montesquieu e até mesmo Stuart Mill justificavam, em maior ou menor escala, a escravidão, Marx foi um grande crítico dessa instituição. Engels, numa das obras mais seminais do marxismo, “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, inspirado nos socialistas utópicos, deu papel de destaque à questão da mulher ao notar que na origem da propriedade privada estaria também o “pecado original” que estabelecia o domínio dos homens sobre as mulheres. O Dia Internacional da Mulher foi obra da II Internacional a partir da proposta da comunista Clara Zetkyn. Um dos grandes mecanismos que permitiu o sucesso do socialismo no século XX foi a capacidade da III Internacional (Internacional Comunista) dar resposta à luta dos povos oprimidos contra o neocolonialismo. Graças à postura dos comunistas, era comum que qualquer militante do movimento negro dos EUA fosse chamado de “bolchevique”. Apesar da questão LGBT ter recebido tratamento inadequado por parte considerável dos marxistas (inclusive na obra de Engels citada), hoje países como Cuba vêm corrigindo essas falhas. Os marxistas sempre lutaram e continuarão a lutar por qualquer bandeira que se mostre justa.

8 – Porém, mesmo com contradições profundas entre as perspectivas de tipo marxista e as pós-modernas não raro as críticas sobre pós-modernismo recaem também em cima de alegados militantes socialistas. Sobre isso é importante notar o que foi dito no primeiro ponto: pós-modernismo enquanto fenômeno passível de ser identificado por determinadas características. O Brasil historicamente recebeu e produziu expressões liberais bem conservadoras. Aqui qualquer bandeira progressista tende a ser relegada à esquerda socialista (ou que se alega como tal). Pessoas que defendem tais bandeiras geralmente não encontram espaço fora da esquerda e, assim, acabam fazendo uma mixpórdia de ideologias na sua própria cabeça.

9 – Algumas características que permitem identificar a manifestação do fenômeno pós-modernista nos meios militantes aparecem “originalmente” como fundamentações teóricas e ideológicas que dão sustentação à premissa principal sobre uma suposta superação da modernidade, como: a) negação da ciência (nítida na acusação de que a ciência seria “uma invenção da sociedade ocidental patriarcal opressora” ou no apontamento de que qualquer debate teórico seria “academicista”); b) a contestação sobre a existência de verdades universalmente válidas (muito presente, de forma implícita, na sacralidade da “vivência”, em que cada um teria a “sua verdade”, que não poderia ser cientificamente constatada ou refutada enquanto uma “verdade única”); c) o culturalismo, mecanismo excelente de negação da realidade objetiva em prol das questões subjetivas; d) a redução na realidade aos discursos produzidos sobre a mesma (assim, por exemplo, buscaram combater uma opressão estrutural mudando os discursos ao pretenderem apagar o gênero das palavras usando uma letra “neutra”, o “x”, no lugar de vogais tidas como masculinas e femininas – de alunos/alunas para “alunxs”); e) a diluição de noções de “poder” e “política” (enquanto para o marxismo nenhum dos dois pode ser descolado do conceito de Estado, para pós-modernos, talvez a partir de Foucault e suas ideias sobre “micro-poderes”, pautas como “empoderamento individual” aparecem em detrimento do controle do poder em torno do Estado); f) o já comentado egoísmo coletivo, no qual as lutas contra as opressões sobre “minorias” não são dadas a partir de uma constatação objetiva da realidade concreta julgada por valores universais, mas sim como questões de ordem moral; e g) o multiculturalismo e a tosca ideia de que um elemento cultural é propriedade privada de um povo e que se não for assim há “apropriação cultural” (o que tem muito a ver com os já comentados multiculturalismo e negação da universalidade).

10 – Por conta da dificuldade encontrada pelos pós-modernos no que concerne à defesa de seus absurdos, é cotidiano que se esquivem do debate ao bradarem acusações de que todos os críticos seriam conservadores ou pessoas interessadas na manutenção de “opressões” – o que vem gerando, inclusive, episódios de agressão (aberta ou não – como campanhas caluniosas contra mulheres e homens comunistas). Entretanto, basta uma breve consulta bibliográfica para constatar o contrário. Grandes nomes progressistas das ciências humanas e sociais, brasileiras e internacionais, como Ellen Wood e Ciro Flamarion Cardoso, possuem vasta obra de críticas que vão dos fundamentos epistemológicos até os movimentos sociais/seitas pós-modernistas. Logo, combater o pós-modernismo é tarefa de qualquer um que acredite que existe uma realidade objetiva que não só pode ser compreendida através da razão e da ciência, como também transformada e melhorada a partir dos resultados dessa compreensão – especialmente da parte da militância marxista. Afinal, o pós-modernismo é, como foi comentado, inerentemente anticomunista nos fundamentos epistemológicos e nas ações propostas. O que está em jogo não é a defesa ou não das lutas e dos movimentos de “minorias”, mas sim a forma de fazê-la. Enquanto marxistas propõe, de um lado, fazê-la a partir da integração dos setores progressistas da sociedade sob um programa de caráter emancipatório universal baseado no acúmulo do conhecimento geral de toda a humanidade e na análise científica da sociedade; pós-modernos reduzem-na a seitas identitárias que tomam como dever apenas a luta da própria “minoria” (e que frequentemente entram em contendas entre si para disputar o lugar de “oprimido por excelência”), abrindo mão do conhecimento humano acumulado e da ciência em prol da abordagem apenas moral da opressão, incorrendo, por vezes, na própria oxigenação com base na manutenção do mero ódio contra aqueles que não compartilham diretamente da mesma opressão, levando a um modus operandi que não raro flerta com as práticas do fascismo clássico.

Diego Grossi

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