Amílcar Cabral: A Nossa luta é fundamentalmente uma luta de libertação nacional ou uma luta de classes?

Nós somos um povo dominado pelo colonialismo português, ou, pelo menos, fomos dominados por ele, antes dos progressos da nossa luta. A nossa luta é uma luta de libertação nacional. Isto quer dizer que queremos acabar no nosso país com a dominação estrangeira, dominação sob forma política e sobretudo sob forma econômica.

A libertação nacional não é pôr em prática as resoluções da ONU, mas sim libertar verdadeiramente as forças produtivas do nosso país para as pôr em movimento ao serviço do nosso povo.

Mas naturalmente que há, seja no interior do país, seja sobretudo no plano das relações exteriores com o domínio colonial, um problema de classe. A dominação colonial na nossa terra é a dominação da classe dirigente portuguesa sobre o nosso povo ou, se o preferirem, sobre a nossa nação considerada no seu conjunto como uma classe e, portanto, a primeira contradição a resolver é exatamente acabar com essa dominação de classe do estrangeiro sobre nós.

No interior das nossas fronteiras há toda uma estrutura social, quer seja na cidade, quer no mato, e nesta estrutura há a considerar o papel dos chefes tradicionais.

É preciso dizer que em geral se encaram estes problemas de chefes tradicionais numa ótica que não corresponde de maneira nenhuma à realidade: pensa-se que este aspeto da superestrutura da vida africana está verdadeiramente muito enraizado e que é muito difícil desenraizá-lo. Mas o colonialismo mudou muito as coisas neste domínio: por um lado, há muitos grupos étnicos que não têm chefes tradicionais, que são sociedades sem Estado às quais os portugueses impuseram algumas vezes chefes que não são da mesma etnia.

Portanto, vê-se já uma fraqueza de base para os chefes tradicionais, por um lado, e, por outro lado, mesmo nas etnias como os fulas, os manjacos, os mandingas, havia toda uma estrutura tradicional de sucessão de chefes que os portugueses não respeitaram porque muitos destes chefes não correspondiam às exigências do colonialismo. Então, os portugueses substituíram aquele que devia ser o chefe pelo seu primo ou instalaram mesmo um outro sem qualquer parentesco com o chefe ou o grupo e criaram assim toda uma situação que retira à palavra tradicional todo o seu verdadeiro significado

Amílcar Cabral (pai da nacionalidade guinebissauense, líder histórico do PAIGC)

https://portalvermelhoaesquerda.files.wordpress.com/2016/12/def27-amilcar2bcabral.png?w=676


Nota do VÀE: Em síntese, Cabral afirma que a luta em Guiné Bissau e Cabo Verde é uma luta de classes a nível internacional (classe dominante portuguesa contra as classes oprimidas que compõem a nação colonizada), e que o fator primordial desta luta de classes é a contradição “imperialismo-nação” (toda e qualquer outra contradição econômica seria secundária ou subordinada a contradição primordial). Assim sendo, a luta de libertação nacional, nas circunstâncias de África de todo o Terceiro Mundo, é também uma luta de classes.

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