Primeiramente, contra a PEC 55! Segundamente, fora Temer!

Dos problemas ainda atuais, um dos mais danosos à esquerda é o “politicismo”. Afirmo isso pois este é a raiz de uma concepção que tende a solapar tanto os esforços gastos atualmente pela militância quanto uma nova faísca de revolta desde junho de 2013 por ser mistificadora e assim levar ambos a um fracasso graças a um erro de foco muito possivelmente induzido conscientemente pelos nossos adversários. No caso, foco no ilegítimo presidente golpista Michel Temer ao invés da PEC 55.

Importante afirmar dois pressupostos: o primeiro acerca do termo “política”, aqui sinônimo de dominação de uma ou mais classes ou grupos sociais sob outros, distanciando-se da concepção que trata do político como administração visando o bem comum. Em resumo, a política é por definição aquilo incapaz de ser resumido ao administrativo e a perfeita negação da possibilidade de um bem acima dos interesses dessas classes.

Se uma delas quer diminuir sua jornada de trabalho e ganhar mais enquanto outra ambiciona uma maior jornada daquela e menor salário para ela, há um embate de forças irredutível à mera ciência da administração. O segundo que as relações sociais de produção e reprodução das condições materiais para a vida (relações econômicas) são as ossadas da sociedade e sob elas se fundam as demais, tanto as de dominação desses seres que se relacionam (política) como as formas ideológicas com as quais estes vão, conscientes ou não, à sua prática diária.

Tal premissa de maneira alguma implica em uma espécie de economicismo, onde todos os problemas se resumem a essas relações econômicas e basta estudá-las para se compreender a sociedade como um todo, mas de que o fato destas serem as quais ora abrem condição para a mera existência das demais, ora requerem algumas delas (como no caso do título jurídico de “propriedade privada”, fundamental para a manutenção do capitalismo), só é possível a compreensão real tanto da política como das ideologias ao se levar em consideração a base sócio-econômica (o conjunto de relações econômicas e suas especificidades conjunturais) sob a qual elas se assentam.

“Politicismo” se refere, portanto, à concepção de que os problemas sociais são resumidos ou predominantemente determinados pelo político-institucional, ótica que embora aparentemente se preocupe com o seu objeto, o distorce ao retirar dele a sua essência: a base material de onde vem a dominação expressa pela forma política específica e supostamente analisada, ou seja, a estrutura econômica de onde advém a dominação, a raiz própria política. Assim, vulgariza-se a análise e se permite que o real escape pelos dedos mesmo com as informações possibilitando a apreensão deste, pois o político perde, nessa análise, seu caráter de classe e vira uma questão de interesses dos agentes sem levar em conta o condicionamento econômico no próprio jogo político.

Consequentemente, a luta da classe trabalhadora é deslocada do trabalho para a política, deslocada de onde sua influência é radical para onde sua influência e secundária, pois retira a centralidade do radical e a passa à zona de instiruições cujo caráter não é neutro frente às classes, mas burguês.

Dento das especificidades atuais, o politicismo pode levar justamente ao consumo de energia dos militantes num ataque a um espantalho: Michel Temer. Em tempo: não apoio Temer e não desconsidero a luta contra a sua manutenção no cargo de presidente. Mas ao sair da concepção que dá uma autonomia indevida ao político-institucional, verifica-se que Temer é um problema passageiro e sua queda deve ser uma mediação para barrar o ajuste fiscal.

A relação entre o impedimento e a necessidade atual da burguesia de acumulação de capital é algo quase declarado pelo próprio golpista que ocupa a presidência¹. E a postura politicista, ao invés de enxergar, portanto, o golpe como necessário para a intensificação do ajuste fiscal e portanto fruto deste, inverte a realidade ao analisá-la e vê o ajuste fiscal como fruto da mera vontade dos golpistas.

A luta, portanto, volta-se para o político-institucional, esquece do econômico ou relega a este um papel coadjuvante e foca numa mudança de presidente ou na simples queda do Temer em abstrato, descambando em uma espécie de messianismo às avessas, onde Temer é demonizado e as condições materiais que o levaram ao poder continuam intactas.

Daí o ódio ao Temer só ser útil se isso for uma via para barrar o ajuste fiscal, expresso agora principalmente pela recém aprovada PEC 55. Caso contrário, todo “fora Temer” não passa de um ódio em vão a um espantalho posto para aguentar metade de um mandato e capaz de utilizar da desculpa de ser um presidente transitório para se isentar de qualquer culpa ou apenas aceitá-la até o novo gestor do mesmo projeto econômico assumir o seu cargo.

A solução, portanto, não é esquecer do Temer, visto que ele é, hoje, peça importante para o ajuste (caso contrário não teria sido posto lá) e sua queda pode mediar um impedimento ao alvo principal, agora, a PEC 55, mas entender a sua transitoriedade e seu papel secundário frente ao próprio projeto econômico em questão.

De maneira um pouco ríspida e bastante necessária, quem coloca o golpe no centro e não suas raízes econômicas, joga o jogo da burguesia tal qual ela ambiciona e à maneira que ela prevê.

Ciro Domingos


NOTAS

1 – Dilma caiu por não apoiar ponte para o futuro (The Intercept); Impeachment ocorreu porque Dilma recusou ponte para o futuro (CartaCapital).

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