Dilemas das Esquerdas: Afinal, as massas são “ignorantes” ou “puras”?

Durante os Jogos Olímpicos neste ano, eu havia criticado segmentos da esquerda que, talvez por influência do pensamento de “psicologia de massas”, decidiu exumar o velhíssimo dilema sobre torcer ou não para a seleção da Copa de 70.

O discurso, tal qual nos anos de chumbo, partia da tese de ampla midiatização daquele megaevento esportivo tinha como consequência única o “entorpecimento” da maioria da população, alijada de enxergar a nu as brutais condições cotidianas de vida a que está submetida.

Segundo eles, o povo brasileiro não se amotinou nas ruas contra a tirania de Estado porque, na sua ignorância infantil, permanecia alucinado por Pelé, Carlos Alberto Torres, Tostão e Jairzinho. Resumidamente: “o povo é burro e não sabe o que faz”. Uma discussão semelhante ressurgiu nas Olimpíadas, com motivos, cenário e personagens distintos.

Pois saltemos então para as fatídicas eleições municipais de 2016, com o bispo licenciado da Igreja Universal eleito prefeito do Rio de Janeiro. Durante a campanha eleitoral, eis que me deparo com um discurso diametralmente inverso daquele do povo “instintivamente estúpido”. Dado fato de o Rio de Janeiro ser uma das capitais com o maior número de evangélicos do Brasil – 23% dos cariocas –, nem é preciso comentar o quanto a religião do prefeito eleito teve um inegável potencial para “arrebanhar” parte significativa do eleitorado em favor de sua candidatura. Mais do que isso, sabe-se também do projeto de poder da denominação neopentecostal seguida por ele, capaz de construir, à sua maneira, uma zona de influência popular de proporções bíblicas.

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O que levou o neopentecostalismo, a despeito de outros segmentos cristãos, a alcançar tamanha base popular, ocupando um vácuo historicamente tão caro à esquerda? Como forjaram laços comunitários? Como a esquerda deve interpretá-los e lidar com eles? Essas são dúvidas presentes no furor do debate. Agora, quero me focar num personagem específico, que, a priori, parece que nada tem a ver com o tipo de esquerda “elitista” que apresentei no primeiro parágrafo: a esquerda “culturalista”, que está relativizando a capilaridade do império poderoso erguido por bispo Macedo e seus asseclas em nome do “respeito à crença”, “amor às religiões do povo” e da “liberdade religiosa de quem quer ser da Igreja Universal”.

É mais do que notório que há incontáveis de correntes de evangélicos no Brasil dos mais variados tipos e é irresponsável criticar genericamente esses milhões de pessoas sem compreender as particularidades de suas vidas. Aliás, se os setores progressistas desejam reconquistar o vácuo que legaram disponível para essas novas denominações cristãs, é saudável encontrar canais de diálogo possível para com elas. Porém, outra coisa bem diferente disso é cativar a ideia de que nós, da esquerda, podemos ignorar que seja um problemão a concentração de poder e a popularidade de uma igreja que admite pastores chutando outros símbolos religiosos em TV aberta, defenda minorias sexuais resultam de “abortos mal sucedidos” e até crie um exército próprio de “Gladiadores do Templo”.

O que vi nessa campanha eleitoral por parte algumas pessoas foi o ímpeto – até sincero, diga-se de passagem – de determinadas pessoas em tratar essa corrente religiosa como algo inofensivo e comparável a outros segmentos religiosos. É provavelmente quase uma sensação internalizada de culpa: “eu respeito numa boa o candomblé e a umbanda, então devo reconhecer igualmente bem a Igreja Universal”. A base desse sentimento de compaixão parte justamente do fato da seita de Crivella e Macedo ser superpopular, conquistando corações e mentes da população mais pobre. Aquela mesma população para quem, ao longo da História, a esquerda sempre entrega sua apaixonada razão de ser na luta política. Logo, tal qual o mito rousseauniano do “bom selvagem”, se tal religião está amalgamada com o povão, ela é inerentemente boa, bonita e digna do nosso “carinho e acolhimento”. Afinal, a cultura popular deve ser respeita, não é verdade?

Ora, pois convém conversarmos que tanto a velha esquerda anti-Copa de 70, defensora da tese do “povo ignorante”, como a nova esquerda pós-moderna, despida de senso crítico na sua devoção à suposta “cultura e sabedoria popular”, são reducionistas em simplificar o papel da comunicação de massa, a cultura e religiões como um todo em nossa sociedade. O cerne do problema nestes discursos, a meu ver, se encontra fundamentalmente na simplificação grosseira sobre o funcionamento do processo de mistificação da realidade que subsiste em nossa sociedade. Em outras palavras, uma “falsa consciência” que poderíamos classificar como Ideologia. Por ideologia, resumidamente, o marxismo compreende de forma crítica como um conjunto de ferramentas simbólicas que corroboram para a reprodução e/ou manutenção das relações de dominação social e econômica.

Posso presumir então que a dominação da ideologia sobre o todo da sociedade não está relacionada, exclusivamente, à existência da indústria cultural, que “veda” os olhos do trabalhador para aquilo que objetivamente importa a ele (na época de Marx, nem sequer existia torneios de futebol e cultos no Templo de Salomão televisados). Na verdade, o processo de alienação começa a se engendrar dentro da fábrica, onde o proletário se vê obrigado a vender sua força de trabalho para elementos não-aparentes (a burguesia), produzindo mercadorias para um ciclo de acumulação totalmente alheio ao seu controle. Portanto, a raiz de todo o processo que podemos chamar de alienação se inicia aí. Submetidos os trabalhadores ao estranhamento de suas próprias atividades laborais, a ideologia desponta como algo inerente a essa dinâmica. Só ela é capaz de naturalizar que uns sejam proprietários e outros não, que uns sejam ricos e outros pobres, etc., e fazer que o próprio trabalhador acredite que ele nasceu para a condição de empregado porque Deus assim quis.

Portanto, qualquer crítica que almeje compreender com sinceridade o que leva tamanha parcela de trabalhadores cariocas, brasileiros e de qualquer região do mundo a apresentar as características X, Y ou Z, tendo os interesses culturais ou professando determinada fé, deve considerar, por obrigação, como a ideologia dominante se vincula às realidades social, política e econômica. Não há qualquer motivo precipitado em ficar fazendo fetichização acrítica de qualquer expressão simbólica popular, ignorando a conjuntura material que leva a população a se expressar tal forma e abdicando da crítica racional. A não ser que a esquerda tenha preferido substituir seu histórico racionalismo por mero dogmatismo, objetivando o status purista de uma seita fechada e clubista. Entre o dogmatismo dessa esquerda aí e o dogmatismo da fé do bispo, nem preciso dizer qual deles hoje está, na prática, levando a melhor…

Gabriel Deslandes


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