O surgimento da Religião, seu desenvolvimento e sua essência: uma análise filosófica materialista

Empreender a busca pela compreensão da religiosidade na pré-história, seu aparecimento, seus distintos significados e expressões, sem dúvida consiste numa tarefa das mais complexas e difíceis.

Pela não utilização da escrita, os homens e mulheres pré-históricos não nos possibilitaram relatos mais detalhados acerca de como era concebido o pensamento religioso. Todavia, vestígios arqueológicos nos conferiram importantes indicativos para compreendermos em que momento a religiosidade surgiu e se desenvolveu entre os homens, assim como – sendo mais importante que qualquer datação temporal – compreender o porquê da religião ter surgido e brotado na consciência humana, adquirindo as proporções que hoje visualizamos nas diversas sociedades existentes.

Neste sentido, o porquê é mais importante do que o quando.

Religião significa (re)ligar-se ao divino. Sabemos que fósseis humanos enterrados não significam necessariamente uma atividade que expressasse alguma crença no sobrenatural ou na vida após a morte. Todavia, ao assinalarmos a existência de “ritos”, com a presença de adornos, utensílios, armas ou chifres de animais, junto aos mortos, podemos claramente identificar que havia ali algo diferente de uma prática de simplesmente procurar se livrar do corpo em decomposição.

Estas primeiras sepulturas identificadas datam de cerca de 80 mil anos, e como toda manifestação e criação humana, penso eu, decorre de necessidades materiais práticas, facilmente encontráveis no ambiente geográfico ou na vida social, como então explicar tais atitudes que, aparentemente, não teriam qualquer sentido material e prático? Aparentemente, pois de fato as respostas não são metafísicas ou fantasmagóricas.

A prática de tais ritos funerários, sem dúvida, denuncia a presença de pensamentos religiosos, que buscavam nestes ritos, assegurar uma “passagem” do morto a um tipo de existência posterior à morte.  E a explicação deste fenômeno, embora mais complexo, não está além da compreensão filosófica e científica.

https://portalvermelhoaesquerda.files.wordpress.com/2016/10/c7713-prc3a9-histc3b3ria.jpg?w=325&h=260O ser humano, ao desenvolver suas capacidades cognitivas, ao ter conhecimento não apenas de sua capacidade de dominar paulatinamente a natureza em seu benefício, mas também de saber que iria um dia deixar de existir, desmaterializar-se, decompor-se, enfim, morrer, cria diante de si um dilema que, como uma ironia quase excêntrica, contempla a razão enquanto dádiva, mas também como fardo, ou em palavras menos comedidas, como esplendor e tragédia de si mesma.

Percebe a natureza lhe servindo, em contraste com a finitude da vida, e não encontra sentido lógico numa vida onde tudo parecia ter sido lhe oferecido para viver e desenvolver-se, alimentando-se e utilizando-se de vegetais e animais, e depois, entretanto, deparar-se com a certeza da morte e o fim da existência.

Neste sentido, a religião nasce como uma manifestação (in)consciente e espontânea da mente humana, numa tentativa de entender a complexidade de um mundo que, embora hostil, lhe parecia ter sido oferecido, e ao mesmo tempo fugir da “inevitável” mortalidade que se apresentava antes os olhares até dos mais desatentos e displicentes homens primitivos.

A angústia de perceber nossos entes queridos falecerem, de não encontrar explicações do porquê se estar vivo, sentindo, percebendo, tentando compreender e não encontrando qualquer resposta.

A angústia de saber que um dia, toda a grandiosa, embora ainda não tão desenvolvida, racionalidade intelectual, com pensamentos, memórias, desejos, sonhos e aspirações, se converteria em absolutamente nada.

https://portalvermelhoaesquerda.files.wordpress.com/2016/10/9b5a8-neandertal.jpg?w=270&h=237E é justamente dentro da explicação materialista acerca do surgimento da religião que podemos compreender suas primeiras manifestações, também percebidas em diversas comunidades tribais e primitivas.

A associação da mulher e do sol ao sagrado e ao divino. As mulheres, por envolverem a fertilidade, por originarem novas vidas, e o sol que fornece o calor, a segurança, com a noite representando o frio, a escuridão e as incertezas.  O ato de enterrar os mortos também pode ser compreendido neste sentido, tendo em vista que a terra proveria os vegetais e alimentos indispensáveis ao ecossistema, podendo, quiçá, novamente fazer reviver os mortos.

Desta forma, percebemos claramente como os próprios deuses e o universo sagrado então envolvido estavam diretamente ligados às sensações e percepções do ambiente em que viva o homem pré-histórico, dotado de racionalidade para se perguntar, de emoções para se angustiar, mas também de poucos conhecimentos minimamente aprofundados para obter as respostas que procurava e de pouca confiança em si mesmo para se contentar com o mundo real e imperfeito em que vivia, criando um outro, irreal e em geral perfeito, onde todas as respostas seriam encontradas e as aflições do corpo e da mente cessariam.

Um mundo ilusório.

A religião.

Evidentemente, e tendo nascido justamente como negação da vida real, a religião tende a cumprir papeis prejudiciais no próprio desenvolvimento desta vida real. Nasce em oposição a ela, lutou e luta encarniçadamente contra ela, de forma tal que uma vitória da religião constitui uma derrota da vida real, e uma vitória da vida real, uma derrota da religião.

Ao crer em uma vida perfeita e eterna após a morte, ou esperar por um messias redentor, o homem torna-se mais facilmente manipulado na vida terrena, despreocupa-se em conquistar nesta vida, sua única vida, a sua plena realização.

Ao edificar sociedades, os sentimentos religiosos evoluem para a formação de poderosas instituições religiosas. Sempre exercendo um poder normativo, coercitivo, a religião, não por acaso, enquanto instituição social, sempre serviu (e segue servindo nos dias atuais) à defesa da ordem social vigente, contribuindo na legitimação das opressões de classe, na manutenção das desigualdades sociais e na perpetuação dos privilégios dos grupos dominantes.

Seja do patriarca que fala diretamente com Deus(es), ou do Faraó, sua personificação terrena, ou da conversão de movimentos religiosos populares em instituições imbricadas ao Estado, as distintas instituições religiosas existentes sempre contribuíram para a formação de aparatos ideológicos conservadores e para a propagação de concepções morais atrasadas e que representavam os mais puros interesses das classes econômica e politicamente dominantes, combatendo o avanço científico e a reflexão crítica.

https://portalvermelhoaesquerda.files.wordpress.com/2016/10/c0e4b-padressaudacaofascista.jpg?w=528&h=380

Em diversos casos, apoiaram regimes tirânicos e opressivos, demonstrando não a perversão de sua essência, mas sua própria essência perversa, não a desumanização de nossa natureza, mas a desnaturalização de nossa humanidade.

C. Jonas


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