Nacionalismo e Internacionalismo: dois sentimentos necessários (por B. Torres)

Está imbuído no senso comum a noção de que “internacionalismo” e “nacionalismo” são conceitos necessariamente opostos. Tem sido muito disseminado a ideia de que a presença do primeiro anula o segundo, e a presença do segundo anula o primeiro. Há a ideia de que nenhuma pessoa, ou nenhuma organização política, pode ser nacionalista e ao mesmo tempo internacionalista.

Essa maneira binária de pensar a relação dialética entre nacionalismo e internacionalismo realmente possui fundamento? Acredito que não, e discorrerei aqui o porquê. Primeiramente, precisamos compreender o que que são cada um desses conceitos, e depois porque advogamos ambos.

O QUE É, AFINAL, NACIONALISMO?

Mas, então, qual a definição-base de Nacionalismo e de Nação?

“O Nacionalismo, é uma tese ideológica, advinda da Revolução Francesa. É marcado por um sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação com uma Nação. Esta (a nação), por sua vez, é uma comunidade estável, historicamente, constituída por vontade própria de um agregado de indivíduos, com base num território, numa língua, e com aspirações materiais e espirituais[1] comuns”.

E Stálin define da seguinte forma:

“A Nação é uma comunidade estável historicamente constituída, de língua, de território, de vida econômica e de formação psíquica que se traduz numa comunidade de cultura”. (STÁLIN, Josef. O Marxismo a Questão Nacional)

Por qual motivo nos reivindicamos nacionalistas? O nacionalismo constitui um posicionamento em defesa dos interesses da Nação, e no nosso caso, da nação brasileira. Objetivamente falando, que interesses são esses?

Tanto do ponto de vista político, quanto do ponto de vista econômico, os interesses de nossa nação nunca foram colocados a frente! Na economia os lucros recordes do capital financeiro e a manutenção do modelo agroexportador (herança da colonização) não são contrariados; na política, todas os políticos importantes (seja do legislativo, executivo e outras figuras públicas) são financiados, em suas campanhas eleitorais, por esses mesmos setores ligados diretamente ou indiretamente ao imperialismo.

Esse problema não se dá somente na política e na economia, uma vez que também se dá no campo da indústria cultural. A cultura popular brasileira (sobretudo as culturas regionais dos cantos mais esquecidos de nosso país) é escanteada e desvalorizada pelo poder público. Há uma inclinação de desvalorização da cena cultural local em detrimento da cultura e de artistas estrangeiros (focado no polo EUA-Europa), e mesmo entre os artistas locais, que conseguem se encaixar nessa indústria cultural, passam quase sempre por uma “padronização” com ares da cena Pop. Os exemplos mais gritantes nestes últimos casos, se dão com o sertanejo de raiz ou o forró, deteriorados em músicas de “sertanejo universitário” e de “forró estilizado”, do qual há pouquíssima ou quase nenhuma diferenciação entre um cantor e outro, de dentro do próprio estilo musical.

Se portar como um nacionalista, no Brasil, constitui-se uma resistência a todos esses males, que permeiam no âmbito cultural, e mais ainda, no âmbito político e econômico. Eles buscam dominar nossa economia, nossa política, nossos meios de comunicação, e buscam com tudo isso, nos negar o direito a viver autenticamente a nossa nação. Em todos esses campos (político, econômico e cultural) o imperialismo visa restringir o direito do povo brasileiro à sua própria pátria. Por isso, o nacionalismo, constitui uma necessidade para a esquerda popular e revolucionária.

O BRASIL E O NACIONALISMO COMO INSTRUMENTO DE MOBILIZAÇÃO

Nas pátrias oprimidas do Terceiro Mundo de maneira geral, e em particular no Brasil, o nacionalismo sempre foi um importante instrumento de mobilização política. Aqui, no Brasil, o nacionalismo sempre possuiu uma conotação progressista e popular, sobretudo quando falamos da esquerda do século XX.

Sob certos “apelos nacionais” a esquerda brasileira iniciou um importante trabalho de resistência ao fascismo e ao imperialismo, por meio da conhecida Aliança Nacional Libertadora (ANL). Ela conseguia aglomerar democratas, tenentes, operários e intelectuais de esquerda, todos unidos na bandeira do combate ao fascismo e ao imperialismo, em prol da luta de Libertação Nacional (que dava o próprio nome a tal associação política).

Posteriormente, houve aquela que foi a maior e mais conhecida campanha nacionalista da história do Brasil: “O Petróleo é Nosso!”. Nessa campanha que durou anos e anos, conseguimos o direito do Brasil explorar suas próprias reservas, e não entregar nossas reservas ao capital estrangeiro. Esta foi uma das mais destacadas lutas entre nacionalistas e entreguistas, que culminou na vitória dos nacionalistas e na criação da Petrobras, em 1953.

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Mais tarde, as pautas nacionalistas que pretendiam ser levadas a cabo pelo presidente trabalhista João Goulart, ficaram conhecidas como “Reformas de Base”, e estas pautas unificaram, na época, o grosso da esquerda revolucionária junto com o movimento popular e nacionalista.

Na resistência ao golpe militar-fascista, o nacionalismo também cumpriu um importante papel, uma vez que foi responsável pela resistência ao primeiro intento golpista contra Jango antes de 64 (em 1961), e estas tentativas foram frustradas graças ao esforço do nacionalista Leonel Brizola. O nacionalismo também mostrou suas caras de resistência ao golpe, entre 1966 e 1967, na guerrilha de Caparaó. E foi no Regime Militar que os mandatos de comunistas e NACIONALISTAS foram cassados.

Entre os prisioneiros, revolucionários e progressistas, tanto do Regime Vargas quanto do Regime Militar, as canções políticas que mais eram entoadas, logo depois do hino d’A Internacional, figurava o nosso Hino de Independência.

Todos estes fatos corroboram que, historicamente, no Brasil, o nacionalismo sempre constitui-se como um instrumento de mobilização política, da luta popular e revolucionária. Aqui, o nacionalismo sempre constituiu como um importante meio-unificador. E é culpa também do abandono da esquerda atual ao ideal nacionalista, o fato das massas ficarem a reboque de reacionários entreguistas e vende-pátrias, que se pintam como patriotas com uniformes da CBF, ou pautando movimentos vendidos como o Movimento Brasil “Livre”.

DIFERENÇAS ENTRE “OS NACIONALISMOS” E SUAS LUTAS MUNDO A FORA

Obviamente, o Nacionalismo não é um “sentimento vazio” e nem sempre ele é “algo em si mesmo”. Quando tratamos do nacionalismo num país capitalista desenvolvido e imperialista (em sua economia e em suas práticas) a ‘verborragia nacionalista’ deste país constituirá, quase sempre, numa prática chauvinista, reacionária e de dominação, tal como tem sido os Estados Unidos ou a Inglaterra. E politicamente, em momentos de crise moral e econômica, é de se esperar que estes países caíam em regimes abertamente fascistas, tal como foi na Alemanha e na Itália.

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Entretanto, ainda nestas regiões “centrais” (em relação a “periferia mundial”), ainda há também a possibilidade do nacionalismo se constituir como um sentimento legítimo e de resistência (opositor aos sentimentos chauvinistas e de superioridade). A nacionalidade irlandesa, por exemplo, sofre historicamente com os mandos e desmandos dos britânicos, tal como o movimento de Libertação Nacional Basco luta contra a Espanha. E para além destas regiões “centrais”, no seio do Oriente Médio, temos a nação palestina que resiste contra os desmandos do Estado genocida de Israel, e luta pelo seu legítimo direito de existir.

Todas essas lutas citadas há pouco, são legítimas lutas por Autodeterminação de minorias nacionais. Obviamente, a luta pela Libertação Nacional no Brasil, não constitui o mesmo nível e o mesmo caráter pela luta de Libertação Nacional na Palestina. Elas possuem uma condição de dominação e de repressão em graus absurdamente diferentes, entretanto, todas elas constituem legítimas formas de lutas nacionalistas.

Se os mecanismos de dominação do imperialismo sobre a Nação Brasileira são mais sutis e ainda permitem a existência de um Estado brasileiro (desde que esse Estado seja subalterno aos interesses do imperialismo), em comparação com o povo palestino que é submetido a repressão e dominação de uma forma muito mais agressiva, do qual o Imperialismo não reconhece nem mesmo o direito deles terem um Estado (um Estado palestino independente e soberano); ainda assim, as duas são lutas contra o imperialismo, e ainda assim, ambas são lutas de teor nacionalista.

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O “nosso” nacionalismo não pressupõe a opressão ou supressão de outras identidades, de outros povos e nem de outras nações. Na verdade, tal nacionalismo apenas é uma defesa contra o imperialismo, e muitas vezes, até mesmo contra o “nacionalismo chauvinista” de potências imperialistas e colonialistas.

“Eu me sinto sempre o patriota de todas as pátrias oprimidas (…). A Nacionalidade é um fato histórico e local que, como todos os fatos reais e inofensivos, tem todo o direito de reclamar aceitação geral. Cada Povo, como cada pessoa, é involuntariamente aquilo que é e, portanto, tem o direito de ser si mesmo. A Nacionalidade não é um princípio; é um fato legítimo, tanto como a individualidade. Cada Nacionalidade, grande ou pequena, possui o direito incontestável de ser ela mesma, de viver segundo sua própria natureza. Esse direito é simplesmente um colorário do princípio geral da liberdade.”  (BAKUNIN, Mikhail. citado em Alfredo M. Bonanno in Anarchism and the National Libertation Stryglle).[2]

Como podemos ver, apesar de termos inúmeras diferenças com a linha teórica do anarquista Bakunin, é interessante constatar como os anarquistas daqueles tempos (século XIX) colocavam a Nação como um princípio inegociável, enquanto que hoje, neste campo, os anarquistas constituem todo um oposto desta linha, e acabaram por se tornarem verdadeiros niilistas nacionais. Com esta negação e “niilismo” irracional ao princípio da Nação, é de se esperar que os mesmos não compreendam nossos valores, e nem as nossas razões.

Nós, enquanto nacionalistas, defensores das pátrias oprimidas, não só defendemos a luta de libertação nacional em nosso país, como também nos solidarizaremos com a luta de outros povos e outras nações, sendo estes outros povos nossos povos-irmãos. É deste raciocínio que parte a nossa solidariedade internacionalista.

O QUE É, AFINAL, INTERNACIONALISMO?

Mas, então, qual a definição-base de Internacionalismo?

“O Internacionalismo é um pensamento político que advoga uma maior cooperação política e econômica entre as nações, em prol de um benefício mútuo, e de uma atuação solidária”.

Como Jong-Il nos diz:

“Internacionalismo é apoio e solidariedade entre países e nações”. (JONG-IL, Kim. Para compreender corretamente o Nacionalismo).

Por qual motivo nos reivindicamos internacionalistas? O internacionalismo constitui um posicionamento em defesa dos interesses comuns de todos os povos, de todas as nações e etnias. Objetivamente falando, quais interesses são esses?

Tanto do ponto de vista político, quanto do ponto de vista econômico, quase todo o mundo é dominado pelos interesses de um punhado de países privilegiados. Esta dominação ocorre por meio da compra de políticos locais importantes, da inserção do capital financeiro e até mesmo por meio de guerras de rapina e pilhagem. É do interesse desse punhado de países privilegiados, que todo o Terceiro Mundo se constitua como sua colônia ou como seu curral.

Toda a “periferia mundial” (África, Ásia, América Latina, etc.), aos olhos desse punhado de países privilegiados, deve ser um grande curral submetido aos seus interesses. O atraso da Industrialização, da aplicação da Reforma Agrária, da Nacionalização de seus recursos (e demais pautas nacionalistas) que ocorrem nos países do Terceiro Mundo, advém dessa perspectiva da burguesia imperialista destes países privilegiados.

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Travar uma luta decidida contra o imperialismo em sua própria nação é uma obrigação de todo internacionalista. Livrar seu país do jugo dominante, enfraquecendo taticamente o imperialismo, é o Primeiro Passo que qualquer revolucionário pode dar em prol da causa internacional. Libertando sua própria nação do jugo imperialista, aplicando um Programa de Libertação Nacional em país, o revolucionário, agora, tem um dever ainda maior de apoiar as lutas revolucionárias e de libertação nacional das outras nações oprimidas. Não só isso, ele deve pautar uma política de integração e cooperação, entre todos os países e nações que se realizaram seus processos de independência e libertação nacional, e que ainda resistem aos ditames do imperialismo.

A integração e cooperação das nações revolucionárias com outras pátrias insurgentes, bem como com os legítimos movimentos de libertação nacional, deve ser o Norte de nossa prática internacionalista. Somente a atuação conjunta das nações anti-imperialistas (e dos movimentos nacionalistas insurgentes) da América Latina, África, Ásia e de qualquer povo oprimido do mundo, podem derrubar de maneira definitiva o Imperialismo.

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CONCLUSÕES A SE TIRAR DESSES LEVANTAMENTOS

Dito isto, deve-se elencar alguns pontos para deixar nossa posição sobre o tema.

1. O Nacionalismo NÃO É antagônico ao Internacionalismo!

O nacionalismo não é o oposto político do internacionalismo. O oposto do Internacionalismo Popular (ou Proletário), é o Internacionalismo Imperialista (ou Burguês). Quando as burguesias das potências imperialistas se conglomeram para atuarem em conjunto (tal como a Tríplice Aliança e o Eixo nas duas Guerras Mundiais, ou como a OTAN na atualidade), essa cooperação internacional entre os países privilegiados são a expressão desse Internacionalismo Burguês, que convenhamos chamar de Imperialismo.

2. O Nacionalismo e o Internacionalismo não se excluem e, na verdade, se complementam!

O cosmopolitismo burguês, que pouco a pouco, visa dominar ou destruir as identidades e nacionalidades dos povos oprimidos, deve ser confrontado com todo nosso ímpeto nacionalista e revolucionário; tal como, nós, brasileiros, devemos implementar uma decidida política de solidariedade internacionalista nas lutas populares em outros países. Essa combinação necessária e urgente do nacionalismo e do internacionalismo não se constitui apenas no âmbito das tomadas de posições e nas declarações de apoio dos  movimentos nacionalistas e nações anti-imperialistas, mas também em medidas práticas e objetivas. O respeito as nacionalidades, a autodeterminação (princípios nacionalistas) e, ao mesmo tempo, a ajuda mútua entre as nações, a solidariedade, cooperação e integração (princípios internacionalistas), são os eixos centrais de nossos princípios.

3. Em primeira instância, do ponto de vista orgânico, as lutas ainda são nacionais ou localizadas!

As nações e povos ainda devem ter autonomia em suas lutas, justamente por prezarmos pelo inegociável princípio de autodeterminação dos povos. Um militante revolucionário e/ou nacionalista deve divulgar as lutas dos povos oprimidos de todo mundo, assim como deve fazer o máximo possível para apoiá-las por meios práticos (ajudas financeiras, voluntariados internacionais, envio de materiais que possam ajuda-los e etc.), entretanto, nunca devemos implementar uma prática de “exportar revoluções”. Não é de nossa pretensão realizar a revolução em nosso país e invadir outras pátrias oprimidas para “libertá-las”. As revoluções partem dos povos, e só eles mesmos possuem em suas mãos seus próprios destinos.


13151765_1738868329687644_4872040907970759605_nB. Torres é militante do NP (Nova Pátria) e coordenador de estudos do CMNE. Costuma abordar o Movimento Comunista Internacional, o Marxismo-Leninismo, a Realidade Brasileira e o Nacionalismo de esquerda.
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NOTAS

[1] No que concerne a “espirituais” não se trata de aspirações religiosas. Quando usamos a expressão “desenvolvimento espiritual do autor”, por exemplo, estar a se falar do desenvolvimento de suas aspirações, de seu intelecto, de seu preparo, etc.

[2] Tal perspectiva de Bakunin também pode ser constatada em escritos seus publicado até mesmo em sites anarquistas, como o blog Anarcas.

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