Quintino, Irmã Dorothy e Eldorado dos Carajás: posseiros e latifúndio na luta pela terra no Pará!

A violência na zona rural paraense é tida historicamente como algo comum, a violência no campo paraense coincide com o fator do estado ter longo e crescente histórico de combatividade na luta pela reforma agrária, através de ocupações de terra, mobilizações em suma maioria das vezes organizadas pelo MST em contraste com uma região que também apresenta presença constante de latifundiários, gerando conflitos de interesse que perpassam ao caminho da violência.

O leste, sudeste e sul do Pará configuram uma região de forte concentração da violência. Esta região é caracterizada pela grande população assentada e, por fazer parte da fronteira agropecuária, o latifúndio aí também apresenta intenso processo de territorialização.

Desta forma, o enfrentamento é mais evidente nesta região e, com a ausência do Estado controlando rigidamente as disputas de ideários na região, os camponeses e trabalhadores rurais são submetidos à violência e exploração por parte de fazendeiros, grandes posseiros e grileiros.

Aliado a isto outras formas de violência como o trabalho escravo são bem constantes no território paraense. Registros do MTE indicam que o trabalho escravo é utilizado principalmente em: companhias siderúrgicas, carvoarias, mineradoras, madeireiras, usinas de álcool e açúcar, destilarias, empresas de colonização, garimpos, fazendas (para o desflorestamento e formação de pastagens), empresas de “reflorestamento”/celulose, agropecuárias, empresas relacionadas à produção de estanho, empresas de citros, olarias, cultura de café, produtoras de sementes de capim e seringais.

Parte significativa dessas atividades é característica da fronteira agropecuária, o que explica a concentração territorial no Norte do país, em especial ao Pará, dando aspectos de caos e total instabilidade no meio civil-social na zona rural do Estado.

Nos últimos 20 anos, mais de 271 trabalhadores rurais e lideranças foram assassinados somente no estado do Pará, traçando um trágico cenário da luta pelo direito à terra no Brasil.

Está profunda e delicada situação historicamente ganha entornos de normalidade na população regional, uma normalização da barbárie. A barbárie segundo Karl Marx envolve vários momentos, mas basicamente se circunscreve no conflito entre as relações de produção e desenvolvimento das forças produtivas, ou seja se inscreve na sua concepção de desenvolvimento da história.

(…) opressor e oprimido, posicionam-se em oposição constante um ao outro, continuando um combate ininterrupto, ora oculto ora aberto, um combate em que em cada período terminava geralmente numa reconstituição revolucionária da sociedade ou na ruína comum das classes contendoras“(Cf. MARX; ENGELS, 1982, p.2).’’

O conflito entre classes, entre ideais, pela terra, nos submete diretamente a Marx e seus ponderamentos sobre relação de produção, força de produção e o resultado social que o capitalismo trás. Porém os caso do campo no Pará não demonstra uma classe contendora e disposta a ruína, é perceptível um movimento combativo e inserido na cultura de resistência do povo paraense, elenco alguns exemplos.

QUINTINO, O GATILHEIRO

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No nordeste paraense, é notório a sua fama até os dias de hoje, Quintino, que também se apresentava como Armando Oliveira da Silva. No fim dos anos 80, uma empresa denominada Cidapar, patrocinada pelo governo do estado, ocupou terras há anos ocupadas por posseiros na região, a Companhia de Desenvolvimento Agropecuário, Indústria e Mineral do Pará (Cidapar), apoiada pelo governo estadual e de acordo com o projeto de desenvolvimento da Amazônia do governo federal, começou a expulsar famílias de uma área de 380 mil hectares, incluindo parte do que viria a ser a Terra Indígena Alto Rio Guamá, onde viviam cerca de 10 mil pessoas, causando revolta da população e gerando forte repressão por parte da empresa, que através de “jagunços” promovia torturas, agressões físicas e morais e ameaças aos que resistiam as ordens da empresa.

Neste caótico contexto, surge a figura de Quintino, posseiro da região que teve suas terras ameaçadas pela presença da Cidapar. Com um discurso personalista e carismático, conquistou a atenção e confiança de outros posseiros, começando assim uma verdadeira guerrilha no nordeste paraense, até hoje desconhecida do resto do Brasil.

Na função de comandante dos posseiros, Quintino montou seu estado-maior: Bodão, Zé Mixaria, Corujinha, Manoel Cego, Mundiquinho, Matias, Vicente Bate Pé, Vicente Sola, Cearensezinho, Sodré, Pedro Elias e Abel.

Os líderes políticos dos posseiros faziam a logística, garantindo o esconderijo, a comida e as munições. Forneciam até 200 homens para servir de soldados. Nas cidades, o grupo passou a ser conhecido como o “pessoal da mata”. Um dos maiores grupos armados de resistência já existente no país.

Quintino comandou ações que mataram diversos pistoleiros contratados pela empresa, e inclusive dois gerentes desta.

Quintino encarnou o que Eric Hobsbawm entende como o bandido social clássico (banditismo), um fora-da-lei que se volta para a causa dos pobres, fracos e oprimidos, ovacionado pelos pobres a quem este defende.

Acabou sendo traído por um comerciante da região, e que abrigava Quintino e os outros posseiros de seu batalhão constantemente, após lhe ser oferecido um cargo de tenente da PM (Polícia Militar), após ter sua localização denunciada, foi cercado pela Policia Militar que acabou por lhe matar.

PAULO FONTELES, O ADVOGADO DO POVO

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Em 1987, o ex-deputado estadual e advogado fundiário Paulo Fonteles, vinculado ao PCdoB e reconhecido na região por defender arduamente lutador pelos direitos civis e sociais dos povos oprimidos no campo paraense, neste mesmo ano havia terminado seu mandato de deputado estadual e o mesmo havia perdido para deputado federal, com isto se tornando um alvo mais fácil dos latifundiários e seus pistoleiros (Que há tempos lhe ameaçavam de morte).

Paulo Fonteles acumulou grande histórico de lutas, na juventude foi militante da AP (Ação Popular), preso e barbaramente torturado, desde muito cedo participando ativamente das lutas pela Reforma Agrária, contra o massacre ao povo camponês no estado, na luta por ocupações, acampamentos e posse de terra para trabalhadores rurais desfavorecidos, se tornando figura pública de prestigio e um forte incomodo para os latifundiários, sendo eleito deputado estadual em 1983. Porém em 1986 sua derrota para a postulante vaga de deputado federal lhe forçou a dedicar todo seu tempo à atividade fundiária, lhe tornando alvo menos complicado.

O advogado foi assassinado em 11 de junho de 1987, por dois pistoleiros, sob suspeita de ter dirigentes da UDR (União Democrática Ruralista) envolvidos como mandantes, deixando forte legado na luta por direitos da terra no Pará.

 JOÃO CARLOS BATISTA

https://portalvermelhoaesquerda.files.wordpress.com/2016/10/0eb94-fot2b62b2bjb2b-2bhp.jpg?w=242&h=343João Batista até os dias de hoje foi o único deputado morto após o fim do governo militar, com mandato pelo PSB, atuou junto dos movimentos pela terra, principalmente o MST no Pará, na luta pela reforma agrária e melhores  condições e investimentos para as terras ocupadas.

Ele foi morto em 6 de dezembro de 1988, depois de ter sofrido três atentados durante três anos consecutivos, em 1985, 1986 e 1987, mesmo tendo solicitado, inúmeras vezes, formalmente, segurança ao poder público – que manteve-se omisso, acabou assassinado no quarto atentado em 1988.

Sendo morto por 2 pistoleiros em frente a sua família ao chegar de uma sessão da Assembleia Legislativa do Pará, os mandantes nem sequer foram mencionados no processo

DOROTHY STANG, “IRMÃ DOROTHY”

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Popularmente conhecida como Irmã Dorothy, esteve presente no Pará desde a década de 70, trabalhando ativamente por melhores condições de vida da população local, fazendo parte da Comissão Pastoral da Terra, de projetos de desenvolvimento sustentável, como a extração do cacau, defensora e solidária da luta pela reforma agrária na região, tendo sua influência internacional permitindo diversos diálogos com políticos, lideres camponeses, religiosos e autoridades tanto do Brasil quanto dos EUA para a questão da terra e seus conflitos.

A Irmã Dorothy Stang foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no nordeste do Pará.

MASSACRE DE ELDORADO DOS CARAJÁS

https://i1.wp.com/www.esquerdadiario.com.br/IMG/arton5968.jpgTalvez o mais famoso e repercutido caso de assassinato de camponeses no país tenha sido Eldorado dos Carajás.

Em 17 de abril de 1996, dezenove trabalhadores rurais sem terra foram mortos pela polícia militar no episódio que ficou mundialmente conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no sudeste do Pará.

Os militantes do MST organizavam uma árdua caminhada até Belém, quando foram impedidos por cerca de 150 policiais armados com fuzis – e sem identificação – de prosseguir o caminho, gerando insatisfação por parte dos sem terra, levando a uma ação repressiva por parte dos policiais que culminou na morte de dezena de militantes e outras dezena de feridos manchando com mais sangue a violenta história do campo no Pará.

Vinte anos depois, apenas dois comandantes da operação foram condenados – Coronel Mario Colares Pantoja, condenado a 258 anos, e Major Oliveira, condenado a 158 anos – e estão presos desde 2012. Nenhum policial ou autoridade política foi responsabilizado.

A zona rural paraense permanece sobre um futuro nebuloso e sangrento, nos últimos 20 anos quase 300 militantes na luta pelos direitos da terra foram mortos, e outras centenas são diariamente perseguidas e ameaçadas.

Poucos crimes foram julgados e culpabilizados os autores e mandantes, geralmente ligados ao latifúndio.

A luta no campo paraense permanece, apesar da forte repressão, o caminho é incerto e nebuloso, mas a esperança de dias melhores segue viva em todo militante pela terra não só no Pará, mas no Brasil.

Matheus Dias


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Referências:

Anistia Internacional, Massacre de Eldorado dos Carajás: 20 anos de impunidade e violência no campo. Disponivel em < https://anistia.org.br/noticias/massacre-de-eldorado-dos-carajas-20-anos-de-impunidade-e-violencia-campo/ >. Acesso em 3 de Julho de 2016.

MARX, K. ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. In: Obras Escolhidas vol.I. Moscou: Edições Progresso, 1982.

LOUREIRO, Violeta Refkalevsky. Estado, Bandidos e Heróis: utopia e conflito na Amazônia. Belém: Ed. Cejup, 1996.

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