É um erro crasso subestimar o desenvolvimento capitalista que já tivemos!

É um erro crasso e comum subestimar o desenvolvimento capitalista que o país teve.

A influência do pragmatismo varguista e do nacional-desenvolvimentismo Cepalino contribuiu para que o Brasil marchasse para a industrialização e à relativa modernização por um longo período. Entre 1940 e 1980 o Brasil obteve um desenvolvimento satisfatório, criação de uma indústria integrada, heterogênea e construção de uma indústria de base estatal capaz de sustentar um desenvolvimento regular.

Esse desenvolvimento capitalista submisso ao Império não é de todo estranho aos resquícios medievais que perpassam ainda na sociedade brasileira. Isso se deve ao próprio contexto de formação colonial brasileira. O que se tornou uma burguesia nacional, e também a burguesia compradora (que se desenvolve como intermediária da penetração do capital imperialista estrangeiro, como o capital bancário, o capital comercial e business ligados a setores de extração de recursos naturais, por exemplos), tem origens principalmente em proprietários de terras, ex-escravistas, que remetem a uma cultura e a um modo de pensar, em geral, extremamente conservador até mesmo para a ética do trabalho que é o protestantismo, que é a “ética do capitalismo”, como diria Max Weber. Essa mescla deve ser compreendida pelo próprio contexto nacional e internacional que impeliram novas formas de relações e à necessidade da própria elite agrária e urbana de se adaptarem ao avanço da economia mercantil e da exigência de se abandonar formas mais antigas de processo de trabalho, ao longo da penetração do imperialismo sob nosso solo.

Por décadas o Brasil crescia a níveis fantásticos dado ao contexto internacional em que ainda várias nações centrais se estimulava o protecionismo e também pela superexploração que havia sobre os trabalhadores. Esse contexto possibilitava, até certos limites, “um desenvolvimento autônomo”, de um país fechado e sem muita competição de mercado. Em 1980 no Brasil a indústria compreendia 40% do PIB, que é um valor fantástico perto do que é hoje, 10%. Mesmo sob os governos extremamente reacionários do regime militar, a influência desenvolvimentista era grande a partir de Costa e Silva em 1967 e a economia nesse período foi bastante estatizada, e fomentou a expansão da indústria.

O Brasil perde o fio da meada na década de 1980 devido aos contextos interno e externo. Externamente os países capitalistas centrais já passam a se abrir cada vez mais e passam de forma pioneira por uma revolução tecnológica sob um modelo de desenvolvimento baseado na inovação e influem internacionalmente à competição. Internamente, como no Brasil o desenvolvimento sempre teve um caráter intensivo, sem uma cultura de inovação, uma burguesia conservadora e uma plutocracia pouco esclarecida, o desenvolvimento de ciência e tecnologia foi irrisório e extremamente tardio. Um país que passa por um desenvolvimento razoável é forçado cada vez mais a adaptar a ciência à formação de novos processos tecnológicos para alavancar produtividade e eficiência na dinâmica da competição e do mercado. Isso até hoje o Brasil está aquém. O Ministério da CT&I só foi criado em 1985, enquanto nos países centrais esse assunto já estava maduro há um século pelo menos. A educação técnica e científica sempre foi subestimada até poucos tempos atrás, sendo, na verdade, o pilar para a valorização de capital humano.

Portanto acho equivocado subestimar o desenvolvimento estrutural que o país obteve, mas é de todo razoável questionar os resquícios arcaicos superestruturais na cultura, nas instituições, na política. A classe operária e a classe camponesa brasileira são razoavelmente organizadas também, por vários motivos históricos, seja pela luta, seja pelo corporativismo varguista. Inclusive nos últimos anos houve uma inclusão social de setores historicamente abastados ao plano orgânico.

É uma ilusão histórica, por exemplo, a política de portas fechadas num contexto internacional em que as economias cada vez mais se baseiam no conhecimento. Uma estrutura que exige inovação para se desenvolver necessita aprender com quem está na fronteira. É igualmente uma ilusão a lógica neoliberal nos países terceiro-mundistas que preconiza a privatização até mesmo de setores-chave em nome de uma falsa “eficiência e competição”. Em países em que a burguesia nacional não possui um longo histórico e é incapaz de se instaurar como classe dominante o Estado deve ocupar esse espaço e criar as diretrizes de desenvolvimento.

Recentemente, durante discussões no G20, a China orientou aos países da América Latina a aprenderem com seu modelo, por terem uma herança em comum: o subdesenvolvimento. Os pilares de suas orientações estavam na formação de Zonas Econômicas Especiais sob planejamento, para atrair investimento estrangeiro de modo a adaptar tecnologias superiores em médio e longo prazo, investimento em infraestrutura para assentar as bases da independência econômica e valorização de capital humano, que em última instância é a principal produtora de ciência, tecnologia e inovação.

Assim, creio que o que é fundamental na atual conjuntura seja uma pactuação politizada entre forças progressistas por um projeto nacional — que verdadeiramente contribuem ao desenvolvimento das forças produtivas e dos movimentos populares — numa plataforma democrática, que ao mesmo tempo que se apoia no movimento de massas, popular e operário, zela pelo capital produtivo e pela educação e setores de inovação tecnológica em sua política. Essa pactuação faz parte do processo histórico ao longo das crises geradas pela penetração imperialista, principalmente pela pilhagem do capital financeiro. É o meio imediato para isolar forças mais reacionárias e rentistas, enquanto atrai setores intermediários a cooperarem e se incentivarem.

Alberto Steffen Neto


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