O Anti-Marxismo da Concepção Interseccional (por B. Torres)

A esquerda no geral sempre foi espaço para uma assídua disputa de linhas. Tais disputas ocorrem no seio do MCI (movimento comunista internacional), no seio dos partidos, ou mesmo no seio de movimentos de massas (como o movimento negro ou o movimento de mulheres).

Essas disputas de concepção sempre ocorreram e, ainda hoje, ocorrem.

No seio da esquerda em geral, e dos movimentos de minorias em particular, há uma concepção que vêm adquirindo grande força. A chamada posição interseccional. Tal concepção tem grande força sobretudo nos movimentos de mulheres adeptos do feminismo.

EQUÍVOCOS NO MOVIMENTO COMUNISTA DO SÉC. XX

Falaremos agora sobre a própria prática do movimento comunista no que concerne a tais grupos de oprimidos (como as mulheres e os homossexuais) no decorrer do século XX.

Sobre os homossexuais, é um fato que o campo socialista em geral se pautou pela antiga posição da OMS (que considerava a homossexualidade uma doença), apesar de que isso não é nenhum “mérito” do movimento comunista, uma vez que todos os países capitalistas tratavam a homossexualidade de maneira igual. No início do século XX, na União Soviética (ainda com Lênin e posteriormente com Stálin) a homossexualidade além de ser uma doença ou desvio comportamental/psicológico, era um “desvio ideológico”, um desvio reforçado pela sociedade burguesa, portanto um “desvio burguês”.

Sobre isso, tivemos apenas uma exceção histórica no século XX, que fora a da República Democrática Alemã (ou “Alemanha Oriental”) a partir da década de 1970, que foi um país pioneiro na descriminalização da homossexualidade seja entre os países socialistas em particular, ou entre os países do mundo todo em geral. Foi de lá que surgiram as primeiras produções cinematográficas que pautavam a homossexualidade como algo “normal” e não um “desvio” ou “prática criminosa”, e até em conferências em que participavam a RDA e a URSS, os comunistas alemães agiam no sentido de pressionar a URSS a rever a posição “antiquada”.

Sobre o movimento de mulheres, os erros não foram tão agressivos como foi com os homossexuais, mas é válido dizer que houveram certas limitações. O caso soviético, aqui, é o mais emblemático, o que chegou a ser até alvo de críticas e comparações com o movimento revolucionário de mulheres na China, pela marxista francesa Claudie Broyelle.

É uma verdade incontável que as mulheres soviéticas lograram uma posição jamais antes vista na história da Rússia. O sufrágio feminino, a política de igual trabalho para igual salário, a indissolubidade do matrimônio, etc., todas essas foram conquistas das mulheres que vieram com o movimento comunista russo. Não queremos aqui contestar isso, entretanto, ao mesmo tempo que houve uma grande expansão de direitos, o movimento de mulheres na URSS sempre possuiu severas limitações em vários outros aspectos. Fica mais fácil de percebemos isso se compararmos o movimento feminino soviético com, por exemplo, o movimento feminino chinês.

Na URSS, mesmo com a educação sendo para meninos e meninas de maneira geral, ainda havia a prática de educar os garotos para determinadas ocupações socialmente associadas aos homens, e as garotas para determinadas ocupações socialmente associadas às mulheres. Havia uma concepção de que haviam “tarefas para mulheres” e “tarefas para homens” e isto era pouco combatido.

Na China, entretanto, o camarada Mao Tsé-Tung pautou no PCCh em geral, e no movimento feminino em particular, o que chamamos “linha de massas”. O movimento feminino chinês após isso, logrou grandes vitórias. Chegou-se a ter escolas com esta concepção sobre de linha de massas na questão feminina, que implementavam uma educação autenticamente mista, que mesclava os garotos e garotos, não esquecendo de “ensinar os garotos a costurar” (afinal, eles mesmo teriam de costurar seus fardamentos, suas roupas e não podiam depender das mulheres), e de “ensinar as garotas a manejar o fuzil” (afinal, as mulheres chinesas não deveriam ficar a reboque apenas dos homens para defender militarmente sua classe e sua pátria).

Estes equívocos que haviam no movimento comunista no século XX, sobretudo na experiência soviética, são erros (alguns mais graves que outros) inerentes a prática política. Só não erra em absolutamente nada aquele que nada faz. O mundo real é feito do erro e da contradição. Entretanto, nós, comunistas, adeptos de uma perspectiva de mundo dialética, defensores da crítica e da autocrítica, estamos sempre sujeitos a nos reavaliarmos. É óbvio, então, que o grosso do movimento comunista na atualidade faça autocrítica de praticamente todos esses equívocos, mas sem reavaliar a nossa posição de classe nem nosso ímpeto comunista.

INTERSECCIONALIDADE: UMA ALTERNATIVA AOS EQUÍVOCOS PASSADOS DOS MARXISTAS?

Levando em conta esse passado de erros e limitações do movimento comunista no que concerne a alguns desses movimentos (como o movimento de mulheres), surgem movimentos que se colocam como uma “alternativa” a isto. As linhas são várias.

Como “alternativa” a linha dos movimentos anticoloniais e antirracistas de teor marxista, surgem nacionalismos negros mais “extremados”; aos movimentos femininos de influência marxista, surgem os movimentos de mulheres que se centram não na contradição capital-trabalho, mas sim na contradição homem-mulher, como os movimentos feministas; como alternativa aos equívocos passados — e alguns ainda presentes — no movimento comunista sobre a questão da homossexualidade, surge e cresce no mundo todo um movimento hegemonizado por uma concepção de moral e de sociedade liberal (salvo algumas exceções) como, atualmente, o movimento LGBT.

Obviamente, os comunistas devem implementar uma prática de disputa de linhas, disputa de concepções, e fazer a linha do proletariado prevalecer sobre as linhas antimarxistas e antirrevolucionárias. No movimento operário, no movimento de mulheres, no movimento negro, e em todos os outros movimentos, a linha revolucionária e comunista sempre se defrontará com outras linhas adversárias, e nós, marxistas, precisamos manter firme a nossa posição frente a todas elas.

A interseccionalidade é apenas mais uma dessas novas “respostas”, ou melhor, mais um nova “alternativa”.

O pretenso “feminismo interseccional” tem sido tanto visto como uma “alternativa a solução marxista” para o problema das mulheres por uns, quanto visto como “algo perfeitamente encaixável e conciliável com o marxismo” por outros. E dizemos que ambos os lados estão no completo limbo de confusão e erro.

A concepção interseccional torna turva a compreensão da realidade; contraria leis básicas de compreensão da dialética; engana facilmente os ativistas mais engajados e que possuem as mais sinceras intenções, enquanto acreditam que estão defendendo uma posição “óbvia”. Ela (a concepção interseccional) é bonita em palavras, mas não resiste a mais simples comparação com a realidade, nem resiste a uma simples e básica análise materialista e dialética.

O FEMINISMO INTERSECCIONAL POR ELE MESMO

Vamos as palavras dos que advogam a concepção intersecional no movimento de minorias.

O Feminismo Interseccional, como o próprio nome sugere, diz respeito à intersecção entre diversas opressões: de gênero, raça e classe social”. (Patrícia Anunciada).

Peguemos o primeiro ponto que eu queria destacar. Patrícia Anunciada fala nessa citação em “intersecção entre diversas opressões”, e entre essas opressões estariam a de “gênero, raça”, e até a “opressão de classe”. Anotem bem, “opressão de classe”.

Há um apelo ao termo “opressão”, como se a questão de classe fosse apenas mais uma “opressão”.

(…) pensar as intersecções como prioridade de ação e não como assuntos secundários”. (Djamila Ribeiro ).

Djalma Ribeiro, para além de considerar a questão de classe como mais uma dentre as várias opressões, evidencia mais ainda a intenção da corrente interseccional, ao dar ênfase que a “opressão” de classe não deve ser a prioritária; afinal, se há algo prioritário, há algo secundário, e para Djalma Ribeiro, não se podem pensar nesses assuntos como “secundários”. Seria uma heresia, não?

Continuemos.

Classe, raça, gênero, orientação sexual, pertencimento religioso etc. são eixos de opressão ou eixos de subordinação (…). Esses eixos de subordinação apresentam-se na realidade material de forma transversal ou interseccional. Isso significa dizer que eles se cruzam e se perpassam criando situações de subalternidade e exploração particulares (…). Não há uma hierarquia pré-definida entre os diferentes eixos de opressão”. (Bárbara Araújo).

Esse é o caso mais cômico.

Bárbara Araújo nos diz que apesar da corrente interseccional ser “um pouco ampla” e “conter algumas diferentes interpretações”, ela propõe alguns pontos chaves no seu cerne, que há na essência de todas elas. Como já foi citado acima, os pontos chaves são:

1) a existência de várias “opressões/eixos de subordinação” (onde a desigualdade de classes é um desses eixos);

2) não há hierarquia entre esses eixos.

3) esses eixos podem se cruzar;

Estes três pontos são a síntese do pensamento intersecional.

CONCEPÇÃO INTERSECCIONAL vs. CONCEPÇÃO MARXISTA

Para qualquer pessoa adepta do marxismo que saiba os postulados básicos da teoria marxista, que tenha lido a descrição cima da concepção interseccional, sabe das colossais diferenças entra as duas linhas e dos erros que evidentes que a concepção interseccional possui, assim como sabe o quão estúpida é a atitude a alguns pseudo-marxistas de tentar encaixar isso com o marxismo.

Levando em conta os 3 pontos chaves sobre a concepção intersecional, vamos destrincha-las uma por uma.

1) a existência de várias “opressões/eixos de subordinação”
(onde a desigualdade de classes é um desses eixos).

A exploração de classes e a relação de desigualdade entre elas (as classes) não é uma mera “opressão” como é entendida atualmente pela esquerda. Concebemos “opressão” como algo a relação entre um “oprimido” um “opressor”, como entre a mulher e o homem, o branco e o negro, etc., onde a opressão é solucionada por meio da eliminação do privilégio.

O primeiro erro reside em generalizar as contradições sociais das minorias (opressões) e as contradições sociais econômicas (luta de classes), como se ambos os casos (luta contra opressões e luta de classes) pudessem ser jogados no mesmo saco.

Para começar, a resolução do problema de uma minoria (como a mulher, os negros ou homossexuais) reside na eliminação do privilégio (dos homens, brancos ou heterossexuais). A resolução final do problema da luta de classes e das contradições econômicas, por outro lado, reside na eliminação não do privilégio de uma classe, mas na eliminação da própria classe!

São categorias completamente diferentes.

As primeiras, as opressões, se dão nas superestruturas sociais, culturais, etc., enquanto a segunda reside na infraestrutura da sociedade (na economia) que é a base de toda a superestrutura.

Tanto quem reivindica apenas a concepção interseccional, quanto quem defende uma espécie de conciliação entre a interseccionalidade e o marxismo, são ambos indivíduos completamente confusos, que não conhecem o que eles mesmos alegam defender!

2) não há hierarquia entre esses eixos.

Ora, este é um dos mais explícitos erros na concepção interseccional!

O marxismo analisa o mundo de forma dialética e materialista e, portanto, analisa as contradições que possuem maior peso na sociedade, como aquelas que residem na infraestrutura social, isso é, na economia, e determina se a contradição principal é, por exemplo, imperialismo-nação, capital-trabalho, latifúndio-campesinato, cidade-campo, etc. (no Brasil, obviamente, a contradição imperialismo-nação se sobressai sobre todas as outras).

O marxismo, obviamente, também se permite a analisar as contradições e opressões que residem nas superestruturas (o machismo, o racismo, a homofobia, etc.), e a relação destas mesmas contradições (na superestrutura) com as contradições econômicas (na infraestrutura). Exemplo: as análises históricas do marxismo sobre o surgimento do patriarcado com o surgimento da sociedade de classes, ou mesmo do imperialismo e do colonialismo (na atualidade e no passado) com o racismo estrutural.

Essa abordagem que o marxismo possui não contraria o princípio que as opressões (e também as contradições econômicas) possuem hierarquia, pelo contrário, o reforçam! Ela nos mostra que a sociedade é regida pelo princípio da contradição principal (sempre regida na infraestrutura econômica) e por contradições secundárias (existente no resto da infraestrutura e em toda superestrutura).

Além disso, outro fato que demonstra e reforça a ideia de que há “hierarquia” entre as contradições sociais (e logo, entre as opressões também), é a capacidade de um movimento levar a cabo um projeto societário geral.

Os movimentos que se pautam por contradições econômicas (como todo movimento operário e camponês, ou como todo movimento nacionalista anti-imperialista) possuem um projeto de sociedade. Eles não se limitam a exigir demandas do poder, a pautar reivindicações ao Estado. Os movimentos operário, camponês e nacionalistas regidos pelo princípio da luta de classes, não se limitam a reivindicam e exigir do poder, eles têm, como finalidade, o próprio Poder.

A contradição de classes pode resultar na tomada de poder pelo proletariado organizado, que implementará um programa político, que no final das contas resulta em medidas que afetarão a sociedade em geral, incluindo aí, por exemplo, as mulheres e os negros.

Ora, qual projeto societário do movimento feminista? Qual o projeto de Poder e de sociedade que este movimento tem? Qual o programa que ele apresenta para a sociedade? E o movimento LGBT?

Pois, bem. Esses movimentos não possuem, nem nunca irão possuir um programa societário geral, como o proletariado pode possuir.

– O movimento operário e o proletariado são, potencialmente, agentes do Poder político e de toda sociedade.

– Os movimentos contra as opressões são, potencialmente, agentes de si mesmos, que dependem do Poder para que suas reivindicações sejam atendidas.

E quem, senão as classes, detém o poder político e econômico em qualquer sociedade? Aí reside a principal divergência da concepção interseccional, não só com outras concepções, mas com a própria realidade!

3) esses eixos podem se cruzar.

Esse é a único ponto que a concepção interseccional aborda que possui certo pingo de racionalidade. Entretanto, quando os adeptos da concepção interseccional falam que “esses eixos podem se cruzar”, essa inter-relação entre as diferentes contradições é analisada por eles de maneira totalmente deturpada, já que as próprias premissas da teoria interseccional são tão concretas quanto o vácuo.

A interseccionalidade enxerga cada opressão com o mesmo “valor” (afinal, não há hierarquia entre elas), e ainda considera a contradição de classe como uma mera “opressão”. Isto abre precedentes para certas coisas bizarras como as “olímpiadas de opressão”: um negro e gay alega que é mais oprimido que uma branca; mas ela o acusou de machismo e lesbofobia, por ela ser uma mulher e lésbica; ele, de volta, a acusou de racismo e homofobia por ele ser negro e gay; mas, de repente, alçando o pódio dos holofotes das opressões aparece uma mulher, negra, lésbica, gorda, dá razão um deles, e sua voz possui mais peso, por ela ser portadora de mais opressões que qualquer um. Temos aí a campeã…

A opressão aqui é vista, como um certo câncer da militância de facebook mesmo defendeu, como “sacos de areia”: Imagine que cada opressão é um saco de 10 kg de areia, do qual uma mulher apenas carrega um saco, mas uma mulher, negra e lésbica, carregará três sacos. E é justamente esse o “cruzamento” entre as opressões que os pós-modernos adeptos da interseccionalidade costumam falar. Para eles, a contradição de classe, aqui, é apenas “mais um saco de areia”.

Uma vez que se considera as opressões como “sacos de areias”, como “pesos que se somam” (e a questão socioeconômica de classes é considerada apenas como “mais uma opressão”), as análises não possuem uma centralidade no trabalho (i.e., na economia), mas nos eixos de opressões. Ex: se você adere, de fato, a tal concepção, você realiza, não análises marxistas sobre a questão feminina e racial (ou sobre qualquer outra questão), mas sim, análises feministas com recorte de classe, análises antirracistas com recorte feminista. Perceba: recorte!

A palavra “recorte” reforça, aqui, a perspectiva intersecional (e não marxista) desse cruzamento entre as opressões. “Análise sobre opressões com recortes de outras opressões”, análises sobre um “saco de areia” e que abordam também outros “sacos de areia”. O “recorte” é nada mais do que um conceito construído com a intenção de reforçar a abordagem de que as opressões (incluído a luta de classes) não possuem hierarquias ou “níveis de importância”, o que abre brechas para afirmar que qualquer pessoa possa oprimir qualquer outra pessoa (independente da sua condição na infraestrutura econômica, i.e., sua classe).

Ora, tal excremento não reside a mínima comparação com a realidade.

Qual a possibilidade de um simples empregado heterossexual ser o opressor do seu patrão homossexual, Tim Cook (CEO da apple)? Qual a possibilidade de um mendigo branco ser o opressor do Barack Obama?

As “opressões” (como o machismo, a homofobia) se dão na superestrutura social e precisam de uma base material para serem “praticadas”. O pai que reprime a sexualidade de sua filha, já adulta, por conta do machismo está, no mínimo, em um mesmo patamar socioeconômico que ela ou num patamar maior. O heterossexual que constrange o homossexual no seu local de trabalho, também estão em patamares próximos. E esse escopo, por qual a opressão perpassa socialmente, é nada mais nada menos do que a sociedade de classes.

As possibilidades de um proletário machista oprimir sua patroa burguesa são ínfimas. Por mais machista e conservador que ele seja nas suas concepções morais, ela nunca — ou quase nunca — será atingida pelo machismo de seu empregado, não como seria atingido pelo machismo de seu marido, ou de seus sócios empresários.

Assim, podemos perceber que a contradição econômica e de classe, não é uma “mera opressão”, ou como ridiculamente já compararam, “mais um saco de areia”, ela é na verdade, além de uma contradição social em si mesma, a régua geral por onde as outras contradições (opressões) perpassam.

A partir disso podemos entender como funciona de fato essa inter-relação entre as contradições sociais. Voltando um pouco a questão da hierarquia (citada no ponto anterior), isso demonstra que até mesmo entre as opressões (machismo, racismo, etc.), há sim “hierarquia”.

Uma vez que a luta de classes é a “régua geral” por onde perpassam as demais contradições (opressões) além dela mesma ser uma contradição (a maior delas!), obviamente, as opressões que são mais imbricadas com a contradição econômica, possuem maior peso, para a causa revolucionária socialista, do que as que são menos imbricadas com a contradição econômica.

Questão racial e luta de classes

Por exemplo, o racismo no Brasil possui um histórico recente ligado ao escravismo brasileiro e ao colonialismo português, e suas chagas são perceptíveis ainda hoje. As estatísticas econômicas sobre a população negra e sobre as classes sociais no Brasil demonstram que a questão racial, aqui, é tão imbricada com a luta de classes que, em alguns aspectos, elas se “confundem”.

É só observarmos, nos dias de hoje, a proporção de negros, entre as classes mais abastadas (detentoras de meios de produção), se comparada com a proporção de negros, entre as classes menos abastadas (detentoras apenas de sua própria força de trabalho). Essa colocação, de maneira pura e simples, responde o quão importante é a questão racial no contexto da luta de classes no Brasil.

Questão feminina e luta de classes

Com as mulheres, há determinados aspectos da luta de classes que se relacionam com suas demandas. A sociedade de classes ter surgido justamente a partir do surgimento do patriarcado e da opressão contra as mesmas, é um fato que colabora para isso. Entretanto, do ponto de vista material, na atualidade, a quantidade de mulheres burguesas, se comparado com a quantidade de negros burgueses, nos provam que na própria sociedade capitalista, a questão feminina possui, atualmente, menos contradições intrínsecas com o capitalismo do que a questão racial.

Isso claro, tem a ver também não só com o contingente populacional entre as mulheres nas classes mais abastadas, mas também do próprio histórico do movimento feminista no seio dessas classes (o próprio feminismo é uma corrente no movimento de mulheres que surge com um teor essencialmente burguês, e se desenvolve a posteriori com um teor pequeno-burguês).

Levando tudo isso em conta, é de se esperar que, na realidade material, no que concerne as principais contradições sociais, a questão racial possua um nível de importância “maior” (no sentido de ser, atualmente, muito mais íntimo com a luta de classes do que a questão feminina). Não por menos, a própria “retórica feminista” tem sido relativamente abraçada em programas da maior emissora de TV do Brasil, a Globo, sem maiores polêmicas.

Homossexuais e luta de classes

Com os homossexuais ocorre algo semelhante, e até mais forte!

Apesar de suas demandas serem legítimas (como a criminalização à homofobia, luta por direitos, direito a união homo afetiva, etc.), a questão da homofobia possui menos relações com a luta de classes do que a questão feminina e menos ainda se comparada com a a questão racial.

É praticamente impossível realizar uma conexão direta entre a homofobia e a luta de classe que não seja o mero “há homossexuais no proletariado!” ou “um homossexual trabalhador é mais oprimido que um homossexual burguês!”. As análises se limitam a estas simples obviedades, e é praticamente impossível realizar uma análise mais profunda do que isto.

Não há como realizar uma conexão intrínseca entre a questão da homofobia e luta de classes, diferentemente de como podemos realizar parcialmente com a questão feminina (devido a origem da sociedade de classes a partir do patriarcado) ou como podemos fazer inteiramente com a questão racial (devido o colonialismo e a escravidão aos negros).

Tal fato se comprova mais ainda ao vermos que o país onde a agenda LGBT tem mais avançado (não só por pressão do próprio movimento, mas também por alinhamento à agenda por parte das autoridades) são os Estados Unidos, e no Brasil quem mais tem encabeçado a defesa da agenda de tal movimento (mesmo nós, tendo hoje um parlamento tão conservador, e havendo na sociedade uma ascensão reacionária) é, também, a maior emissora da imprensa burguesa do Brasil: a Rede Globo.

Os maiores veículos de comunicação da sociedade burguesa temem menos o esclarecimento social sobre a questão da homossexualidade do que qualquer mínima conscientização sobre os problemas econômico-estruturais dos negros brasileiros… ou não temem de forma alguma.

Isto significa necessariamente que estas pautas (dos homossexuais) sejam ilegítimas? Não! Não significa isto. Mas significa que a própria burguesia não tem contradições intrínsecas com a aceitação dos homossexuais na sociedade, e por isso, tais pautas não devem possuir o mesmo nível de atenção que, por exemplo, as reivindicações do movimento negro, e mais ainda, as demandas históricas do proletariado revolucionário.

É assim que funciona a realidade social e, portanto, é assim que o marxismo sempre irá considerar o “cruzamento” entre as opressões.


13151765_1738868329687644_4872040907970759605_nB. Torres é militante do NP (Nova Pátria) e coordenador de estudos do CMNE. Costuma abordar o Movimento Comunista Internacional, o Marxismo-Leninismo, a Realidade Brasileira e o Nacionalismo de esquerda.

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