“O sistema socialista chinês é mais eficaz, mas têm que prezar pela igualdade”: Entrevista com Cheng Enfu

Tradução de Bruno Torres do texto “el sistema socialista chino es más eficaz, pero tiene que velar por la igualdade” encontrado no blog ‘Manos Fuera de China’. Você pode ler no original espanhol aqui.


Nota do blog Manos Fuera de China: Resgatamos esta entrevista de 2011 do diário Gara, ao professor Cheng Enfu, do Departamento de Estudos Marxistas da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Personalidade que é uma das máximas autoridades teóricas da China e quem melhor pode explicar-nos o processo que está se desenvolvendo na China há algumas décadas. Praticamente nada do que ele disse nesta entrevista em 2011, foi perdido na atualidade. Breve, porém instrutivo (…)

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Nascido em Sanghai em 1950, Cheng Enfu é uma influente que, nos debates internos que acontecem no regime chinês, defende com unhas e dentes o caráter socialista do modelo chinês, o que o leva a ter uma posição combativa e inclusive, às vezes, “crítica” sobre o futuro da economia e da sociedade deste gigante asiático. E é, claro, sempre aborda as questões a partir da ótica chinesa e de suas concepções marxistas.

A China é uma potência política e econômica emergente no século XXI, é um país que está na boca de todos. Mas há poucas oportunidades de conhecer de primeira mão a realidade, expectativas e desafios do gigante asiático.

Convidado pelo “IPES-GITE Elkartea” para inaugurar um ciclo de conferências sobre os modelos para o socialismo no século XXI que conta com a colaboração da UPV, o professor Cheng tem oferecido esta semana vários seminários e conferências em Donostia e Bilbo. Seu discurso, é claro, é em parte e inclusive uma defesa apaixonada, ainda que crítica, do modelo chinês. Ele fornece, portanto, informações chaves que vão além das análises rasas e simbólicas nos círculos ocidentais (…).

ENTREVISTA COMPLETA

A China é socialista?

Claro. Ao largo de 30 anos de processo de “reforma e abertura”, liderado por Deng Xiaoping, o modelo chinês tem passado de uma economia planificada a uma economia de mercado socialista. Há que recortar que se trata de um processo dialético em construção e que requer ainda de muito tempo para chegar a uma forma desenvolvida.

Mas a economia chinesa está aberta a propriedade privada e aos investimentos estrangeiros…

O modelo se baseia na prioridade da propriedade pública em um sistema de múltiplas formas de propriedade. Mas é o setor público que se mantém como forma primária e mantém e ocupa atualmente entre 67% a 70% do PIB. Nós cremos que a economia de mercado bem utilizada é um instrumento útil. Mas sabemos que o mercado [capitalista] não tem “coração nem cérebro”, por isso a economia de mercado deve ser dirigida pelo Estado. Não por um “governo de turnos”, como propõe o keynesianismo. Nosso modelo vai mais além, e enquanto a propriedade pública prevaleça, o socialismo não colapsará.

Há quem sustente que estamos ante um país capitalista em que o “socialismo” se limita a ter uma administração centralizada que privilegia a propriedade estatal…

Ocorre que a questão da propriedade só é um dos vetores do modelo. Não há como esquecer que o sistema da propriedade ao valor do trabalho, é um sistema de distribuição  que equilibra a igualdade e a eficácia com o desenvolvimento econômico, priorizando o princípio de “cada qual segundo seu trabalho”. Outros elementos que o definem, é a busca da autonomia e a autossuficiência da economia nacional, sempre buscando um equilíbrio com a introdução de tecnologia e capital estrangeiro.

Mas não é certo que nos últimos anos a igualdade tem sido negligenciada em nome da eficácia econômica?

Nos últimos anos temos privilegiado mais a eficácia, mas agora estamos tentando buscar um novo equilíbrio. Uma coisa é o modelo e outra a implementação dinâmica do mesmo. Ocorre algo similar com a distribuição da riqueza. Quanto mais decresce a proporção da propriedade pública a distribuição é menor. Na China, a cifa de milionários se está duplicando em grande velocidade. Os índices que medem a desigualdade tampouco são bons. E outro problema que enfrentamos é que o setor privado cresce com muito maior rapidez que o público.

Você admite que o crescimento da desigualdade social é um dos desafios que afronta a China?

Sem dúvida alguma. O desequilíbrio a que se refere a distribuição da riqueza e o desenvolvimento econômico se resume nas quatro desigualdades: 1) entre as zonas urbanas e rurais, 2) entre os setores industriais, 3) entre o leste e o oeste do país e 4) entre os distintos extratos sociais. Os documentos do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh) [dão orientações] nos anos [à frente], sob a direção de Hu Jintao, dando ênfase a redução destas desigualdades. Mas as medidas tomadas pelos distintos departamentos do Governo não têm sidos suficientemente eficazes, e é certo que as desigualdades estão a aumentar.

O que se pude fazer para inverter estas tendências?

Há uma exceção no grande município de Chonquing, onde está levado a cabo um tipo de experiência pioneira para redução da desigualdade que está dando bons resultados. Como representante do povo, eu mostrei meu apoio a estas medidas e à sua extensão a todo país, no recente Congresso do Povo celebrado há alguns dias. Ademais, tem se lançado várias propostas concretas para fortalecer a propriedade pública, associando o ingresso dos trabalhadores com o dos diretores das empresas estatais, e com o rendimento da empresa.

No que concerne ao sistema político, o que têm a responder aos que qualificam a China como uma ditadura do partido?

O próprio Deng respondeu um dia à Margaret Thatcher que a aparente contradição, entre o socialismo e a economia de mercado na China, não só parecia superada por encontrar um equilíbrio entre a igualdade e a eficiência, e o fato incontestável de que podemos conseguir um maior rendimento econômico. Precisamente a liderança do PCCh é outro dos elementos centrais que garante o desenvolvimento do socialismo com características chinesas. A liderança do Partido, junto com a liderança do povo e o Estado de Direito e o poder da lei, configuram a estrutura política, que têm sua manifestação internacional no Congresso do Povo, cujos representantes se diferenciam dos deputados ocidentais, em que não defendem os interesses dos setores da sociedade, a consulta política com outro partidos não comunistas que participaram da luta contra o imperialismo antes da Revolução de 1949, nas regiões autônomas com as minorias étnicas e, por fim, sobre a autonomia local.

Como Deng diz defender a superioridade do modelo chinês?

Ele apenas fala a realidade. Os que defendiam a “doutrina de choque” nos últimos anos da URSS esperavam que ela fosse positiva a longo prazo. O PIB dos países do leste europeu fora reduzido à metade. A superioridade do capitalismo em relação ao comunismo [e ao socialismo] não é real, como foi demonstrado na última crise, que nunca poderia explodir em tal magnitude na China, como ela explodiu [e tem explodido, nos países capitalistas]. E mais, se não fosse pela China, a crise haveria sido ainda pior para Europa e Estados Unidos. Imagine ode estaria a China agora se em vez de 1.300 milhões (1,3 bilhões) de habitantes tivesse 300 milhões.

E passou-se anos desse que Francis Fukuyama “previu” o final da história e o triunfo total do capitalismo…

O socialismo com característica chinesas segue em pé e o próprio Fukuyama tem reconhecido recentemente que o modelo dos EUA não é uma referência para a China. Tem reconhecido que há espaço para o modelo chinês. Saudamos sua retificação.

É um modelo exportável?

Me fizeram esta mesma pergunta em uma visitação recente ao México, onde é evidente o fracasso do modelo neoliberal. Não há dúvida de que nosso modelo pode ser uma alternativa ao Ocidente, que diferente da China, sempre tem tentado impor aos outros países o seu modelo, inclusive por meio de ingerências militares abertas. Esse debate está aberto na Índia, Irã, e inclusive a Jordânia. Mas há que insistir que nós defendemos a autonomia para nós e para todos os outros. Não aspiramos que todos os países em desenvolvimento copiem “milimetricamente” o modelo chinês, nem sequer no Vietnã. Somos os primeiros a conhecer suas vantagens e desvantagens.

O ocidente, sobretudo Estados Unidos, pedem insistentemente a China viva de acordo com suas responsabilidades como uma grande potência.

Mesmo que a palavra responsabilidade possa soar muito “bem”, o que está por trás dessa exigência é a tentativa dos EUA de que a China se alinhe a sua política. Mas nós seguimos de encontro a qualquer imperialismo, unilateralismo, ameaça militar e hegemonismo, seja político ou monetário. Mantemos vigentes os cinco princípios da convivência pacífica propostos pela China nos anos 50, que incluíam o não-alinhamento e não-dependência a outras potências, fora da URSS, ou seja, os Estados Unidos.

Temem realmente uma ameaça exterior?

China sofre um cerco em forma de “C” promovido pelos Estados Unidos com Coreia do Sul, Japão, Asia del Sureste e Índia, como aríetes. Nosso objetivo é não repetir o caminho de potências históricas recentes como Inglaterra, Alemanha e Japão. É por isso que nunca falamos da ascensão da China como potência, senão do desenvolvimento pacífico, harmônico e próspero da China.

Destaque, por favor, os desafios internos.

No plano teórico há um conflito de linhas na China entre aqueles que aspiram manter e aperfeiçoar o sistema socialista, que [ainda] é uma linha majoritária, e uma corrente liberal que intenta em derrotar [o socialismo]. Esta última se subdividir entre a corrente neoliberal e a partidária de um modelo socialdemocrata ao estilo escandinavo. Porém entre os defensores há, por sua vez, duas tendências: uma conservadora, que define um marxismo mais estancado e pouco flexível e outra, com a que me identifico, que aposta em explorar as possibilidades do socialismo e reformá-lo.

Que avaliação geral fazem em relação ao poder, no próximo ano, com chegada da chamada Quinta Geração?

Em relação a “passagem de poder”, que marcará a despedida da Quarta Geração liderada por Hu Jintao, está assegurado na XVIII Assembleia do PCCh no outono de 2012. A eleição nas secretarias do partido e na presidência do país estão sendo feitas, e os novos líderes estão sendo examinados em suas aptidões.

 

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