“No Vietnã só existe um caminho, o caminho do socialismo”: Entrevista do VÀE com Hoàng Mạnh Tuấn

Entrevista com Hoàng Mạnh Tuấn, jovem cidadão e universitário vietnamita. Na entrevista que se segue, podemos mostrar as impressões que um jovem cidadão vietnamita – e apoiador do regime encabeçado pelo Partido Comunista do Vietnã – tem sobre: a sociedade vietnamita; seu modelo educacional; a política; os rumos da economia do país, etc.

Hoàng Mạnh Tuấn é um vietnamita excêntrico. Estuda línguas estrangeiras na Universidade de Educação Ho Chi Minh, e um – dos vários – integrantes da classe trabalhadora vietnamita. Mesmo Tuấn (nome que prefere ser chamado) não sendo integrante do PC do Vietnã, ou algum funcionário do Estado, entrevistá-lo foi uma experiência gratificante e bem humorada – e bote bem humorada nisso – para nós.

A entrevista foi realizada por meio do RaidCall (software de conversações em áudio online), e o que se segue abaixo é uma transcrição da mesma. A ideia da entrevista, a execução da entrevista, agendamento, e a maioria da ‘mão de obra’ desse material é mérito do camarada Victor Gallani (sobretudo, porque a entrevista foi feita em inglês, idioma do qual apenas o camarada Gallani domina). E auxiliando o trabalho, ajudando a estruturar a entrevista, elaborar perguntas, e transcrevendo a entrevista para o português, há também um pouco de mérito eu (Bruno Torres).

Em nossas conversas informais Tuấn se mostrou uma pessoa com o senso de humor bem afiado (nem imaginem o quanto), e no meio da entrevista ele deu um pouco de sua mostra do seu senso de humor! Então desde já, avisamos que para não se surpreenderem com uma ou outra piadinha do Tuấn. Particularmente, o oriental com maior senso de humor que já conheci.

Esperamos que vocês gostem da entrevista, e a partir das perguntas sobre temas gerais que fizemos ao jovem Tuấn, vocês despertem a curiosidade para aprender mais sobre o Vietnã (tal como despertou a nossa), e que vocês se sintam a vontade para tirar quaisquer novas dúvidas e nos encaminhar perguntas para uma possível nova entrevista com Tuấn.

Bom proveito!


ENTREVISTA:

VÀE: Olá, pode nos falar um pouco de você, camarada?

Tuấn: Claro. Eu me chamo Hoàng Mạnh Tuấn e tenho 18 anos.

Moro em ‘Ho Chi Minh city’ [VÀE: antiga Saigon renomeada após a Guerra]. Trabalho como entregador de cosméticos (como ocupação temporária) e pretendo me envolver futuramente em algum trabalho para o meu país no meio diplomático, etc. (como por exemplo, numa embaixada). Estudo Inglês e Chinês na ‘Ho Chi Minh University of Education’.

Com um fuzil (AKM 7.62×39 mm). Hoàng Mạnh Tuấn portando uma arma de defesa nacional.

– ENSINO –

VÀE: Então Tuấn, pode nos resumir como é o sistema de ensino básico no Vietnã?

Tuấn: Temos um ensino básico de grande qualidade, do qual o jovem tem de estudar 12 anos de sua vida (isto é, no ensino básico, há 12 anos letivos OBRIGATÓROS) [VÀE: período um pouco menor do que aqui no Brasil].

Os estudantes, no geral, têm de chegar às 7 horas da manhã e os mesmos largam de 5 horas da tarde [VÀE: tempo próximo as das escolas em horário integral do Brasil].

Como é de se esperar, as escolas buscam ensinar os conteúdos mais básicos e diversos, de uma gama diferente de conhecimentos, “se ensina de tudo um pouco”.

VÀE: Na escola, a luta ideológica é bem travada? Dão a devida ênfase a assuntos políticos e históricos importantes?

Tuấn: Sim, sim! Costuma-se da muita ênfase a assuntos como a Guerra do Vietnã, e se fala muito das nossas vitórias contra os Estados Unidos e contra a França.

Por sinal, sobre a importância da Escola na formação política, aqui é mais comum aprender sobre as ideias de Karl Marx na própria Escola do que na Universidade.

VÀE: Por falar nisso, como se dá o acesso ao ensino superior no Vietnã?

Tuấn: O ensino é acessível a população. Existem provas, muitas provas… Mas das quais, os estudantes se preparam bem para tais provas nos seus 12 anos letivos do ensino básico.

VÀE: A existência de tantas provas, não torna então o ensino de nível superior algo que não é tão acessível assim à população?

Tuấn: How, em condições normais, se você passou por um ensino básico de qualidade – como é o nosso – por 12 anos e não tem capacidade pra passar numas provinhas, então… Você é muito burro mesmo (risos).

https://i1.wp.com/kenhtuyensinh.vn/images/2013/12/dai_hoc_su_pham_tphcm.jpg

Foto de Universidade Pública enviada por Hoàng Mạnh Tuấn.

VÀE: (Risos) Mas não falamos neste sentido. Talvez você não tenha entendido porque seus sistemas de avaliação para ingressarem no ensino superior sejam bem diferentes dos nossos. O que queremos dizer é que: no Brasil os estudantes para terem acesso ao ensino superior, basicamente, têm de competirem entre si por uma vaga (vagas das quais são bem escassas, e uma maioria esmagadora dos estudantes fica de fora sem oportunidades); estas competições aqui acontecem por meio de provas do tipo (provas de Vestibular). No Vietnã também é assim?

Tuấn: Ah, sim! Não, não é assim. É certo que não há vaga para todo mundo em todos os cursos que desejarem. Podemos dizer que se tratando do ensino superior, tenham 60 vagas (para o ensino superior) para cada 100 estudantes formados (nos 12 anos letivos do ensino básico). Mas não chega a ser algo tão absurdo quanto aí no Brasil.

Por sinal, além da Universidade, se nem todos os estudantes podem ingressar nela, o governo também disponibiliza de maneira gratuita o ensino de nível técnico (com cursos que chegam a ser de 2 a 3 anos, enquanto que na Universidade chegam a ser 4 ou 5). O fato é que, ninguém “fica pra trás”, ninguém “fica de fora”.

Oportunidades em nosso país não faltam, e isso é o mais importante: não deixar ninguém pra trás!

E, além disso, há as Universidades estrangeiras.

VÀE: Então há Universidades particulares no Vietnã?

Tuấn: Sim, as estrangeiras. O governo vietnamita permite que outros países (como a Austrália, que faz parcerias com o governo) invistam dinheiro no país construindo universidades, e permitem que vietnamitas estudem lá.

VÀE: E no caso dessas Universidades estrangeiras, como se dá o acesso?

Tuấn: Como falei, nas universidades vietnamitas públicas o acesso a elas se dão por meio de provas. Já nas estrangeiras, que são particulares, você simplesmente se matricula e paga a mensalidade, não há muito o que fazer. Também há espécies de bolsas.

[VÀE: provavelmente essas bolsas são frutos de políticas de parcerias do governo do Vietnã com tais universidades estrangeiras, como políticas de isenção de alguns impostos para os donos de universidade, em troca do fornecimento de bolsas para a população, etc.].

VÀE: Qual a proporção em quantidade de universidades públicas para particulares? E a qualidade do ensino?

Tuấn: Mais de 90% do ensino superior é público, fornecido gratuitamente pelo Governo do Vietnã. E sobre a qualidade, o ensino nas universidades públicas do país, com certeza, é de nível bem melhor do que as particulares estrangeiras.

VÀE: Há Escolas de Ensino Básico particulares?

Tuấn: Não, não existem. Particulares, como já falei, existem apenas algumas irrisórias universidades. O governo garante 100% do ensino básico, e garante mais de 90% do ensino superior.

Nas escolas, a única coisa que você paga, é caso queira desempenhar alguma atividade extracurricular (que seja de fora da grade do ensino básico), como por exemplo, um curso de fotografia. Você pagaria tais atividades extracurriculares por fora, e assim sendo, tem de pagar a escola (isto é, pagar ao governo), o que não chega de nenhuma forma a ser uma prática de “escola particular” (você não paga uma mensalidade a uma empresa, como paga à universidade estrangeira; você paga AO GOVERNO).

– POLÍTICA –

VÀE: Tuấn, você faz parte do Partido Comunista do Vietnã?

Tuấn: Não. Na verdade, te confesso que não sei nem exatamente quais os critérios para ingressar no Partido Comunista.

Sei que, a partir dos 17 anos, qualquer jovem vietnamita pode entrar na “Juventude Comunista do Vietnã” (um movimento de massas de jovens dirigido pelo partido), e nesse movimento da “Juventude” dirigida pelo PC você vai sendo formado e se preparando para um futuro ingresso no próprio PC, passando de membro da Juventude do Partido para membro do partido em si.

Mas não sei te dizer exatamente como se dá esse processo.

VÀE: Há outras ideologias fortes no Vietnã?

Tuấn: Não. No Vietnã só existe um caminho, o caminho do socialismo!

VÀE: Há outros partidos além do PC do Vietnã?

Tuấn: Existem pequenos aglomerados de traidores que se formaram sobretudo depois do incidente de 1974, mas elas são ínfimas (sobretudo porque grande parte desses traidores desertaram e fugiram do país). Acho que não chegam a ser “partidos”. Desconheço a existência de outros “partidos” no Vietnã.

VÀE: Você mencionou um incidente que ocorreu em 1974. Que incidente é esse?

Tuấn: Foi logo após sermos vitoriosos na guerra contra a França, e tomarmos a cidade de Saigon, rebatizada ‘Ho Chi Minh city’ após a guerra [VÀE: Ho Chi Minh city ou ‘Cidade de Ho Chi Minh’ é a cidade que Tuấn mora].

Contrarrevolucionários traidores chegaram a formar agremiações políticas minúsculas para enfrentarem os comunistas após a tomada da cidade de Saigon, e isso foi em 74. Mas depois de um tempo boa parte se exilou. Atualmente, só existem como falei, pequenos aglomerados de traidores, e indivíduos isolados, que defendem que novamente se separe o Vietnã. São meros idiotas separatistas.

VÀE: Esses separatistas se encontram mais no Sul que no Norte?

Tuấn: Sim. Mas ainda sim é bem ínfimo. São só, como falei, raros babacas, mercenários que recebem dinheiro! E [também] babacas que não recebem, e são mais babacas ainda (risos)! [VÀE: Piada com os ‘tradidores’ que não se vendem, logo “fazem papel de idiota de graça”].

VÀE: Há alguma Federação de Mulheres – como a ‘Liga das Mulheres’ da Coreia do Norte – no Vietnã? Pode nos falar um pouco sobre as atividades dela?

Tuấn: Tem sim, claro que tem. Chama-se “Vietnam Women’s Union” (União das Mulheres Vietnamitas). Agremiação – a nível nacional – de mulheres do Vietnã dirigida pelo PC do Vietnã (no caso, pelas mulheres do PC do Vietnã).

[VÀE: Tuấn nos enviou um link do site da Vietnam Women’s Union: http://hoilhpn.org.vn/].

Mas não vou me delongar mais sobre isso! Porque? Porque sou macho, e isso é coisa de “mulherzinha”, (risos).

– ECONOMIA –

VÀE: Parte considerável da esquerda Ocidental, devido às aberturas e as entradas de empresas estrangeiras no Vietnã, considera que o Vietnã já tenha restaurado o capitalismo e sucumbido a contrarrevolução burguesa (ou mesmo à ordem imperialista). O que você acha da perspectiva dessas pessoas (perspectiva por sinal, bastante popular aqui no Ocidente)? E como vai a economia vietnamita?

Tuấn: Eu queria que, gentilmente, você avise a estas pessoas, de que eu as mando se ferrarem! (risos) Brincadeira. Mas respondendo sério agora: existem empresas estrangeiras sim, mas isso se chama integração (que é necessário a se fazer), para desenvolver seu país (suas forças produtivas).

E a economia vietnamita vai indo bem! Lembro-me que os EUA passou por uma crise forte há poucos anos (2009), e neste mesmo ano, lembro-me que o modo de vida do Vietnã quase não foi abalado.

Os EUA? Fodidos! E o Vietnã? Numa maravilha! Oh Yeah! (risos)!

[VÀE: Da crise que se alastrou sobre o EUA e, sobretudo na Europa, parece que a mesma não influenciou com grande peso a economia vietnamita pelo forte peso da intervenção do Estado vietnamita sob a economia do país. Talvez o Estado lá ainda cumpra um papel dirigente na economia do país].

– QUESTÃO MILITAR –

VÀE: Como funciona o ingresso nas Forças Armadas do Vietnã?

Tuấn: Para os homens, o alistamento militar é obrigatório ao se completar 18 anos [VÀE: semelhante ao Brasil], mas caso o jovem estuda, e seja matriculado em alguma instituição de ensino técnico ou alguma Universidade, ele é automaticamente dispensado do alistamento obrigatório [VÀE: nesse aspecto, não tão semelhante assim quanto o Brasil].

Para as mulheres não é obrigatório, mas elas podem se alistar livremente, de maneira voluntária.

Apesar do alistamento militar obrigatório, sei que mais de 80% dos integrantes das Forças Armadas estão lá por que realmente querem aquilo! E isto não é uma opinião, é um fato!

VÀE: Qual o percentual de mulheres nas Forças Armadas do país?

Tuấn: Acredito que a porcentagem de mulheres nas Forças Armadas, seja pouco menor que 10% [VÀE: Infelizmente, uma quantidade bem ínfima, sobretudo comparada a países como Cuba e Coreia].

As mulheres no Vietnã tendem a não se interessarem muito por certos assuntos políticos e de guerra.

VÀE: Você não acha que o alistamento obrigatório ser apenas para os homens não influencia essa baixa quantidade de mulheres de alguma maneira?

Tuấn: Mais ou menos. Mas é como falei, as mulheres no Vietnã tendem a não se interessarem por esses assuntos (militares) [VÀE: pelo que Tuấn comenta parece que há um problema sobretudo cultural no que se refere a inserção da mulher na política e mais ainda nas Forças Armadas, e a impressão que se passa é que o governo vietnamita não faz tanto esforço quanto deveria para se resolver estes problemas – sobretudo culturais e ideológicos – da inserção das mulheres nas FA].

– CONCLUINDO A ENTREVISTA –

VÀE: Tuấn, nossa entrevista está chegando ao fim. Muito obrigado pela conversa bem humorada, e também por ceder todo esse tempo pra gente!

Tuấn: How, não acabemos essa conversa antes d’eu contar uma popular piada vietnamita!

VÀE: (Risos) Claro!

Tuấn: Havia um avião de viagens, onde estavam neles: o Bush, o Bill Gates, um Monge e um Guerrilheiro Vietnamita, e este avião estava caindo! Havia essas quatro pessoas, num avião caindo, mas só havia TRÊS paraquedas.

O Bush pegou o primeiro paraquedas e falou: “eu fico com o primeiro paraquedas, porque sou o atual homem mais importante do mundo!” e pulou do avião em queda.

Bill Gates pegou o segundo e falou “eu fico com o segundo paraquedas, porque sou o atual homem mais inteligente do mundo!”, e pulou do avião em queda.

O Monge era o terceiro da ordem, e falou “Jovem Vietnamita, eu sou o próximo da ordem, mas pode pegar os meus paraquedas, pois já vivi muita coisa, e você tem muito que viver!”, o guerrilheiro Vietnamita respondeu “Ah! Relaxe. Não vou precisar do seu paraquedas, pode ficar com ele. O “homem mais inteligente do mundo” pulou do avião com minha mochila de suprimentos”.


Em seguida demos boas gargalhadas, e Tuấn nos fez rir mais um pouco. Espero que tenham gostado da entrevista tanto quanto gostamos de realizá-la.

— Victor Gallani e Bruno Torres


PS – As posições expressas por Hoàng Mạnh Tuấn, são unicamente as posições de um jovem cidadão vietnamita, e não representam necessariamente a posição firmada dos colaboradores do Vermelho À Esquerda, nem uma posição oficial do nosso portal.

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