Memórias de Kim Il-Sung e as vilas “anarquistas” coreanas.

André Ortega, sobre o o fenômeno das “vilas ideais”, do qual os anarquistas tentaram se apropriar historicamente do fenômeno.

Estou aqui dando uma olhada nas Memórias do Kim Il Sung, uma ótima obra. Achei algo que interessa muita gente […].

Quando surgiu a questão da “revolução anarquista na Coreia” eu falei que ocorre uma apropriação ideológica por parte de anarquistas do que seria um fenómeno orgânico nos assentamentos coreanos, que as comunas existiam precedendo qualquer agitador anarquista e que os comunistas trabalhavam com ela.

O capítulo é um capítulo sobre o “movimento” de construir vilas ideais. Kim Il Sung está contando de uma vila (normal, não “ideal”) que ele queria cooptar para o movimento de independência, organizar […], no entanto os anciãos resistiam ao envolvimento com a política, com o movimento das “vilas ideais”(que era uma coisa meio anarquista e comunista, a “coisa” que disse ser “reapropriada”).

Kim Il Sung não queria fundar uma vila ideal (o que ele considerava utópico […] [como] os anarquistas coreanos que dissolviam Exército [Revolucionário] pra fazer “auto-defesas”) e sim uma base revolucionária para conduzir a guerra […]. Primeiro um dos filhos do ancião, que era um agitador de esquerda e já conhecia Kim faz tempo, foi lá falar com o Kim para “se livrarem dos anciãos”(isolarem os mesmos politicamente) e levantar a bandeira vermelha na vila. Kim disse que ele estava louco, que assim ele iria dividir a vila, que eles deveriam trabalhar com os anciãos (mais tarde no texto ele brinca chamando esse amigo de “Trotsky”).

Encontrou o ancião, jantou com ele, mentiu a idade pra ele (tinha 18 e falou que tinha 23), concordava com o velho para não ofende-lo, etc. Acabou que o velho até falou de como a vila deles era como uma “vila ideal”, onde as coisas eram conduzidas de maneira democrática por um conselho, sem governo, sem polícia e sem prisão – notem que ele não era nenhum anarquista. Kim explicou suas ideias, seu projeto e descobriu que no passado o velho tinha sido militante do PC Coreano (rachado). O velho disse que as ideias de Kim “cheiravam a stalinismo, mas que eram boas”. O velho ainda complementou que “você não deveria pagar tributo somente a Stalin, existe algum sentido no que disse Trotsky”. Kim Il Sung ficou impressionado com […] [ele] expondo as ideias de Trotsky e perguntou porque ele “idolatrava” Trotsky… o velho retrucou que ele não “idolatrava” Trotsky, que ele simplesmente era contra o hábito dos jovens de “idolatrar” esses líderes estrangeiros… que Trotsky é Trotsky e Stálin é Stálin, e que os coreanos deveriam pensar de acordo com a Coreia e promover a revolução no seu próprio país.

Kim Il Sung diz que a principio achou um velho trotskista mas depois entendeu que se tratava de um homem cansado de lutas faccionalistas que ele só estava alertando os jovens contra a idolatria de tudo, contra apenas falar de outros países, sobre a Rússia e Stálin, e contra copiar tudo da Rússia. O velho ainda acrescentou que achava que os jovens podiam fazer o que quiser mas que lutaria contra aqueles que saem repetindo fórmulas estrangeiras sem ter seus próprios princípios.

Por fim, notemos que Kim Il Sung, o comunista “malvado sectário”, não chegou matando todo mundo na vila “suprimindo sua autonomia”, mas respeitando a mesma e respeitando até o “velho trostskista”.

André Drumond Ortega Filho

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